Voos

Não sei
Por onde caminho.
Conheço o porto de chegada,
O meu porto de chegada,
Bem melhor do que as marcas
Que hoje estão inexoravelmente tatuadas na minha pele.
Gostava de te apagar delas.
A ti
E às marcas que deixaste
E de fazer um reset total,
Que me fizesse recordar
A pessoa que era, sem ti,
Antes de te conhecer.
A pessoa que fui,
Com os sonhos tontos que tinha
E com certeza tantas quedas por dar.
Gostava de lá voltar.
E, se,
Ainda que por segundos,
As músicas entoassem no mesmo tom,
Os desejos soassem a possibilidade,
A desapego e a excitação,
Tudo ao mesmo tempo?
Lembraste
Desse tempo?
Não me arrependo
Em momento algum,
De ter sido criança,
De ter sido tonta,
De ter sonhado
E de ter acordado depois.
Não me arrependo de ter acreditado em amizades eternas
Em amizades perfeitas
Em pessoas perfeitas...
Para mim.
Não me arrependo de tudo quanto foi perfeito
Para mim.
Mesmo dos erros que cometi,
Se os quis cometer,
E tal qual os quis cometer.
Arrependo-me sim,
De me terem mudado
E, acima de tudo,
De ter deixado.
Não fosse isso
E eu ainda hoje acreditaria,
Tonta, cega, leda
Mas feliz.
Se não fosse isso
Ainda hoje sorriria
E sonharia
E levitaria só por te ver passar.
Não fosse isso,
E tantos erros ficariam por cometer,
Aqueles que eu não quis cometer.
E tantas coisas por experimentar,
Coisas das quais acabei por não gostar.
Eu conheço-me
Demasiado bem até.
Ou, então,
Conheço o suficiente para saber
Que esta não sou eu,
Não fui eu,
Nem tão-pouco serei eu.
Sou de fé
De impulso
De crenças vãs.
Mas sou.
E, se não tenho sido,
A ti o devo.
Meu deus,
Perdi
O rumo
A fé
Até deus.
E a troco de quê?
Deixa-me voltar.





Ritmos

E o coração pára
A cada passo que dou rumo ao desconhecido.
Tento respirar.
O ar dói-me,
O ar queima-me.    
Desde quando se tornou tão pesado
O Ar,
Se é tão leve que sinto
Este meu coração?
Parou outra vez,
O meu coração.
A minha pele vibra, sem cessar.
Fico arrepiada.
Fazes-me frio.
(Fazes-me fria)
Por que me fazes tu... fria?
Destino.
Chamas-lhe destino,
(Chamo-lhe má sorte).
Sigo outro trilho,
Sem ventos de Norte,
Sem pedras em que tropeçar.
Só eu e a minha vontade
Só eu e um Amor que arde.
Já não me ardes,
Já não me queimas.
Foste apenas a poesia de algumas tardes,
As lágrimas de poucas noites,
As loucuras de muitas madrugadas.
Foste
E ficaste.
E eu sem reparar...
Que nunca havias cá estado.


Atlas

Vês como estar perto
Apenas nos torna mais distantes?
Somos distantes no tempo, na vida, na alma,
No coração.
Somos distantes.
Nascemos distantes, distintos, famintos
De vida, de rostos, de sonoridade.
Nascemos, e só porque nos atrevemos,
O Mundo mudou
O Destino deu voltas e mais voltas
E agora a vida não pára.
Mentiria se não te confessasse o alívio.
Sabe-me bem.
Mentiria também
Se te jurasse ter Fé
Em mais do que o puro arbítrio.
Não me conformo.
Não me conformarei
Senão traçando eu
O meu próprio caminho.



Saudades

Ter saudade de

Não tenho saudade
Dos julgamentos que fazias
Acerca do que eu vestia,
Do sorriso que  eu envergava
Das lágrimas que eu calava.
Não tenho saudades da pressão que sobre mim exercias.
Podias não mo dizer
Mas eu sentia. Sempre o senti.
A verdade é que mal suportava o teu olhar
Trespassando-me a alma
Ou quiçá o corpo.
(Não sei se me resta agora alma
Ou se algum dia estiveste interessado em mais do que um corpo).
Um corpo quente.
Um coração diferente.
Não, nem to direi sequer.
Não tenho saudades,
Nem lamento
Não ter saudades.
Sinto saudade,
Isso sim.
Uma saudade singular
Não de ti,
Não de ninguém em particular.
Sinto saudade
E é só.
Um dia aprendi
Que a saudade
É um péssimo motivo,
Um mote desastroso,
Uma perda de tempo,
Uma perda de vida.

Sentir saudade é uma perda de vida.







As letras nem sempre choram

Despiu-se de medos, largou as amarras e entregou-se de corpo e alma à vida.
A vida há muito que a aguardava, ansiosa, numa esperança de menina quase infantil, tão terna, tão carinhosa.
Não procurava, na vida, o carinho, a cumplicidade, a compreensão.
Procurava paixão.
E encontrava-a, em todo o lado: nas ruas, nas praias, nas planícies desertas, nas vilas agitadas e acolhedoras... Encontrava-a nos sorrisos, nas piadas que já não a faziam rir, nas paredes que já não lhe reservavam surpresas...
Era certo que sempre gostara de amores ostensivos.
Gostava de ver amor escrito nas paredes.
Desejava que se cobrissem de amor as manifestações contra a classe política, contra a crise e a diferença de cores clubísticas. "Pinte-se de amor" - dizia ela.
"Pinte-se de amor esta parede, mais a outra e aquela ali também. Pintem-se as portas das garagens, dos armazéns, das unidades fabris. Mas, antes de mais, pinte-se o céu." E depois parou, encarou as nuvens de frente, sentindo-se incrivelmente pequenina e disse: "Gostaria de ver amor pintado no céu".
Inspirou, confusa, sentou-se na extremidade do passeio e disse "Não sei o que fazer".
De seguida pensou para si "Por vezes é preciso largar tudo e ser feliz. Apenas isso. Desprendimento. E, esse desprendimento... não o confundas com frieza, devaneio ou imprevisibilidade, tão injustamente associados a uma menina sonhadora e indecisa que não sabe o que quer. Eu sei bem o que quero. E o que não quero, eu sei ainda melhor. Eu sei, finalmente.".
"Não voltes, por favor" - sussurrou olhando para o chão.
"Não voltes".


Dor

A beleza é uma equação.
A equação da beleza.
Mas quanta beleza reside,
Em quem tanto te despreza?
Beleza.
Saudade.
Des-saudade.
Não-saudade.
Anti-saudade.
Uma incursão inocente na amálgama de sentimentos
Que é não amar
Sem nunca ter não-amado.
O belo.
O sincero.
O simples.
Des-amar-te.



Dormência

Tenho as mãos dormentes.
O vento sussurra lá fora.
Sussurra o seu nome
Com uma timidez despida,
Uma altivez arrogante
De quem sabe o que quer.
As letras ecoam.
Pesam-me.
Sufocam-me.
Não quero poesia
Idiossincrasias
Utopias
Paixões ardentes
Sonhos desfeitos.
Não quero sonhar.
Nem sonhos
Nem beijos
Nem enganos
Ou desejos.
Quero o tempo
A Paz
E, acima de tudo,
A liberdade
De saber que me pertenço
E a mais ninguém.



Não existe dever-ser.


Esquecimento

Incontornável é que são iguais as pessoas
Assim como são iguais as ruas,
As dúvidas,
As inquietações.
Incontornável é um dia cair
E, se o dia não for o de hoje
Ou se o for
Tanto me faz.
Não é incontornável que não seja capaz.
Incontornáveis.
Incontornáveis são as lições que levamos connosco
Para a vida
Para casa
Para nós
E em nós.
Lições que se tatuam na nossa pele
Que nos marcam bem fundo as expressões do rosto
Que nos fazem acordar com aquele ar pesado
De quem não sabe ao certo se se encontra desperto
Ou num aperto
Sem tecto nem chão.
Incontornáveis são os factos
Os erros
E os erros
E os erros outra vez.
Erros.
Vivemos a cometer erros.
O que vem depois deles?





Anatomias

As palavras nunca são ocas.
São tesouros cheios de intenções, de desejos, de sonhos. São uma empatia que se não revela nos gestos. Ou que pretende ser sentida em mais do que a pele.
"Eu quero que ouças", "que o leias", "que o recordes e o revivas tantas vezes quantas queiras"... "Eu amo-te", Eu espero-te", "Eu vivo-te", "Eu sinto-te aqui apesar de tudo". "Magoaste-me". "E é só.". Porque as não-palavras também não são ocas. Também se dizem. Também magoam. Às vezes também amam e acariciam num silêncio complexo que vive na angústia e no risco que é não saberes, não leres, não o sentires. Sente letra a letra.
Não são ocas as palavras. São eternas.
Dizê-mo-las ocas apenas para não lidar com a sua definitividade.
É difícil lidar com a definitividade. Mas a seguir a estas palavras, bem como à maioria das outras palavras das pessoas, das despedidas e do Mundo, seguir-se-ão outras.

Interrogações

Vazio.
O vazio pode ser ensurdecedor.
Esvazio-me da vida
Esvazio-me de ti.
Adeus, saudade
Que correste com os dias
Como se não fosse meu o tempo
Do qual me despias.
Adeus, saudade.
O vazio
Quando nos esvaziamos do Mundo
Não é mais do que a Paz
De saber que somos,
Queremos,
E vivemos
Independentemente de um pretenso todo
Inexistente
Ou aparente
Que ora nos rodeia
Ora nos sufoca
Ora nos completa.
O vazio da Paz
O vazio da Felicidade
A concretização que sonhamos.
Só podemos encher-nos de Amor
Se antes nos esvaziarmos de tudo...
Mas,
Dito e feito,
Será Amor que queremos?




Renascer

Sou uma bailarina. Arrumei as sabrinas. Deixei o ballet
Pedi ao coração "não vejas", "não sintas", "não tenhas saudade". "Perdoa". "Perdoa, coração". "Perdoa".
E fui ser feliz.

Ir pra ser feliz.
Ir pra ser feliz deveria ser a primeira frase que nos cruza o pensamento de manhã. O desejo que pedimos no aniversário, momentos antes de se apagarem as velas e se baterem palmas frenéticas e felizes. O de ano novo também.
Todos os desejos que a vida nos concede ou, por vezes, nos parece conceder não passando a possibilidade de um mera ilusão, geradora de uma felicidade momentânea e prazerosa (ou apenas infantil e ingénua) deveriam começar por "ir pra ser feliz".
"Ir pra ser feliz" deveria ser a frase que toda a mulher coloca num post-it, invariavelmente preso por um íman na porta do frigorífico. "Ir pra ser feliz" hoje, amanhã, e no dia a seguir e em todos os que se seguirão nas nossas vidas.

Mas...
ir onde?