As letras nem sempre choram

março 17, 2015

Despiu-se de medos, largou as amarras e entregou-se de corpo e alma à vida.
A vida há muito que a aguardava, ansiosa, numa esperança de menina quase infantil, tão terna, tão carinhosa.
Não procurava, na vida, o carinho, a cumplicidade, a compreensão.
Procurava paixão.
E encontrava-a, em todo o lado: nas ruas, nas praias, nas planícies desertas, nas vilas agitadas e acolhedoras... Encontrava-a nos sorrisos, nas piadas que já não a faziam rir, nas paredes que já não lhe reservavam surpresas...
Era certo que sempre gostara de amores ostensivos.
Gostava de ver amor escrito nas paredes.
Desejava que se cobrissem de amor as manifestações contra a classe política, contra a crise e a diferença de cores clubísticas. "Pinte-se de amor" - dizia ela.
"Pinte-se de amor esta parede, mais a outra e aquela ali também. Pintem-se as portas das garagens, dos armazéns, das unidades fabris. Mas, antes de mais, pinte-se o céu." E depois parou, encarou as nuvens de frente, sentindo-se incrivelmente pequenina e disse: "Gostaria de ver amor pintado no céu".
Inspirou, confusa, sentou-se na extremidade do passeio e disse "Não sei o que fazer".
De seguida pensou para si "Por vezes é preciso largar tudo e ser feliz. Apenas isso. Desprendimento. E, esse desprendimento... não o confundas com frieza, devaneio ou imprevisibilidade, tão injustamente associados a uma menina sonhadora e indecisa que não sabe o que quer. Eu sei bem o que quero. E o que não quero, eu sei ainda melhor. Eu sei, finalmente.".
"Não voltes, por favor" - sussurrou olhando para o chão.
"Não voltes".


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