Casa no telhado

agosto 08, 2015



Perdi as chaves da casa.
Tenho uma casa no telhado,
Sob as estrelas,
A uma hora do mar.
Abro a janela
E tento em vão sentir os aromas
A canela, a maresia e a Verão.
Na rua,
Já são poucos os corpos que vislumbro,
Algo inertes,
À espera de uma vida melhor que nunca vem.
Corpos acomodados à rotina,
Ao vazio das ruas,
E ao cheiro inespecífico do ar.
Inspiro...
Nada.
Nem uma nota de felicidade.
Suponho que seja este o aroma pestilento
Do tédio,
Da desistência,
Da preguiça.

Falo do alto,
Com razão,
Mas sem exemplo.
Acomodei-me, confesso.

Já quase me agrada a apatia,
A falsa paz
E o cheiro a maresia que não é.
E afinal não há corpos,
Sou apenas eu
E uma vontade de recuperar 
O que em mim venceu,
Prosperou
E floriu,
Num ímpeto primaveril
De ser,
Mais do que grandiosa,
Bela,
Extremamente bela.
Ser das aves não a mais singela.
A mais livre.

Quero libertar-me do peso dos outros
Sobre os meus ombros.
Não me liberto de mim.
Já não o quero.
Aprendi que posso voar
Para bem longe
Ainda que a janela seja sempre a mesma
E vontade sempre diferente.

Há sempre uma razão que muda
Não as ruas,
Mas os seus sentidos.




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