Desarmonias

agosto 22, 2015



Se o mar for o mesmo,
Se eu chorar memórias antigas,
Se a saudade for mais forte
Do que os imprevistos da vida,

Se as palavras se repetirem
E a distância nem sempre me cair bem,

Se eu me quiser fechar em mim,
Não estar,
Não falar,
Nem respirar,

Se eu evitar
As pedras em que já tropecei,
Se rejeitar
Os muros que já me viram chorar,
Não uma,
Mas todas as vezes
Em que eu por lá passei,

Se
Eu desejar uma ponte
Só para dela saltar,

Se eu me sentir asfixiar,

Se eu não quiser conhecer ninguém novo,

Se eu não quiser mudar,
Fingir
Ou deixar de ser,

Não julgues,
Que eu percebo
Ou percebi somente,
(Ainda com a alma descrente
E o coração
Muito mais quente),

Eu percebo
Mas preciso ser entendida,

Como se fosse uma estrofe sem sentido,
Uma narrativa sem ter nunca parágrafo ou ponto final,

Como se fosse sempre
Um ponto de escuridão no teu dia,
Ou um foco de luz
Numa noite sombria.

Preciso de um abraço.
Mas não o quero.
Não quero prender-me em abraços,
Noutros braços,
Nos teus braços,
Em quaisquer laços,

Por isso,
Talvez seja mais simples
Ou pragmático
Ter o mesmo mar,
A mesma dor,
A mesma não-vontade de lutar
Numa luta que se arrasta
Ao mesmo tempo que nos destrói,
Constrói,
Reconstrói
E nos destrói outra vez.

Almas sem fé são assim.

Mas já alguém disse
Que de duas descrenças
Se não compõe
A mais perfeita fé?




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