It May be Christmas

(Menos de dois meses até ao Natal.
Há um mês com uma saudade agridoce da época natalícia.)


Por aqui o Outono nunca foi tão frio. A rotina aborrece-me.
O meu coração está numa espécie de caos ininterrupto. 
O tempo escasseia e eu apenas consigo sentir a minha cabeça a andar à roda.
Todos os planos que fiz, todos os sonhos que um dia tive, escaparam-me por entre os dedos. 
Tenho uma merda de um passado que não me deixa seguir em frente.

Para quê alistar-me noutra guerra, se perdi todas as batalhas em que me envolvi?...


Não era para ser assim

Gostava que o Inverno me trouxesse uma espécie de fé aconchegante, que me mostrasse que as nuvens nem sempre ocultam o caminho, que, embora encoberto, ele sempre esteve lá, à espera da hora certa para o percorrer.
Mas não possuo qualquer espécie de fé. Apenas o frio que entra pelas janelas que eu insisto em abrir, como que para amenizar a sensação de viver aprisionada numa realidade que não é a minha.
Quero voar daqui.
Não conheço estas palavras, estas amarras, estes corpos.
Não conheço as vozes que calam a minha voz, as lâminas que me cortam as asas sempre que consigo de alguma forma libertar-me deste sufoco.
Existem mil uma formas de se aprisionar uma alma e nenhuma delas, seja qual for o motivo, é menos vil, menos maliciosa, menos egoísta.
Estou sem ar, sem sonhos, sem tempo.
Estou sem chão, sem sorriso, sem vontade.


Nunca fui uma pessoa triste.
Até triste ser a única palavra capaz de me definir, ou de alguma forma expressar o estado de uma alma que já não é a minha, de um coração que eu já não tenho, de um corpo inerte sem saber como sobreviver.
Todos os dias são iguais. Insuportavelmente iguais. A música de fundo, sempre com a mesma letra "Nunca irás conseguir"... "Nunca irás conseguir". A certeza de que vou a esfumar-se... A inevitabilidade das consequências.
Consequências.
Por vezes, o "amor" exprime-se em consequências: rancor, desdém, uma necessidade constante de inferiorizar o outro.
Quem diria que o "amor" serviria de rótulo a esta prisão asfixiante na qual não nos resta senão acenar, sem falar, sem existir, sem respirar sequer.
"Amor", essa não-existência humilhadora e desrespeitosa.

E um dia voltar



Essas paredes,
Construídas sobre recordações
De sentimentos que não chegaram a ser.
Sempre senti uma vazio de alma, aí,
Onde os corpos se cruzam
E o ar é invariavelmente frio.

Subi degraus, dobrei esquinas
Sem sequer saber onde me encontrava
Por onde ia,
Onde queria chegar...

Não quero voltar.

Não me basta o mar,
Não me bastam as melodias,
A beleza do espírito
Ou o enternecer do corpo.

Quero o meu mar,
As ruas que eu já percorri
Sozinha,
De braço dado,
Lado a lado...

Quero as melodias 
Que são minhas,
Os amores que eu perdi,
As vitórias que eu alcancei.

Quero recordar-me que errei,
E seguir caminho,
Com o sorriso e o carinho
Que um dia eu lá deixei.

Eu senti.
Senti nas notas,
Senti no corpo,
Na pele,
Nos meus dedos ,
Nos pés que se não queriam mover.

Eu senti
Que um dia iria perder,
Sem sequer ter jogado.

Senti que o Inverno aí é mais frio
E a Primavera bem menos solarenga,
As folhas não caem, as flores não florescem,
As gotas de orvalho sempre secaram
Bem antes de as contemplar.

Eu nunca pertenci a esse lugar.

Carta aberta




Minha quimera,

Padeço de uma solidão convicta e deliciosamente voluntária.
A saudade invade-me os dias e entristece o meu coração. Porém, logo me ocorre que a saudade, para ser verdadeira saudade, é a falta que se sente do que foi, mas já não é. 
Então, tenho uma saudade miudinha do que já não é, nem pode ser e, para ser sincera, talvez até nunca tenha sido.
Não quero recuperar a ideia que hoje tenho de algo que não foi. Dói-me sentir que me doeu e eu nem senti.
Hoje, sinto-o em dobro,  e assim permaneço, sem saber como será o recobro de um coração que nos dói no passado.
O sentido, nas palavras que agora escrevo, é  não fazerem sentido algum. São meras composições não poéticas, desprovidas de sentido e sem carisma algum.

Não simpatizava com elas, até me enamorar.

E qualquer enamorado sabe que o problema de se estar enamorado é começar a romancear. Assim, fiz do teu corpo a tela que eu sempre quis pintar, da tua alma, o mistério que eu ansiei desvendar.
Tu, o meu mistério predilecto.
E eu, um enigma errático que escapou a toda a espécie de lógica.
Se me detive, e se medi cada palavra, foi somente por te ter querido sempre. No fundo, eu sempre quis conhecer alguém como tu. 
Não falo das roupas que vestes, do teu cabelo rebelde, das meiguice que quis ver no teu olhar. Não falo sequer desse teu sorriso delicioso, do teu jeito naturalmente sedutor ou da tua pele sempre morena.
Não, nada disso.
Gosto da tua genuinidade. Sem floreados. "Simples assim".
Alguém como tu, que me salvasse deste tédio dos dias sempre iguais, das manhãs invariavelmente frias e, sobretudo, das minhas mãos vazias e errantes, que, afinal, sempre procuraram as tuas.
Segura-as com firmeza, meu amor, pois já não existe dúvida alguma.
Sei que, um dia, serei o livro aberto que procuras e que eu outrora fui.
Oxalá não seja tarde, 
Que o Amor  se não cabe,
Ainda antes de começar.

Aparências



O teu sorriso é a expressão mais incoerente de sempre.
Recorda-me um carinho que já não é,
Mas que podia ser.

Parece que finalmente esgotei as potencialidades criativas
De desviver.
(Tenho medo).

O que faço aqui?
Por onde vou?

Não sei
Como se vive sem paixão 
(Que (des)ilusão).

Como vivem os desapaixonados?

Cinzento



Sou escrava de um amor sem nome,
De um ofício sem paixão ou calor,
Não sou escrava do Amor.

As palavras perdem o gosto,
E as luzes parecem enfraquecer
À medida que o tempo passa.

Só me resta escrever,
Ou sofrer,
Ou um dia amadurecer.

Hoje apenas O procuro.
Procuro Deus
Porque não te creio,
Porque não lhe creio,
E, no silêncio que, assim, em mim fica:
Nem em mim creio.

"Creio no Amor como quem crê em Deus".
Tolos aqueles que confiam o seu coração
A um semideus:
Meio homem, meio pecador, meio manipulador.
Não to confio.
Não lho confio.
Apenas mo confio.

Talvez o problema resida
Em eu ser já inteira,
Por mim só.

Sou livre,
Vivendo na aparência de um cativeiro quase vil,
Sou o tumulto,
Reflectido no silêncio da minha alma emudecida,
Adormecida,
Fingida.

Sou a voz,
Que um dia murchou
E se fechou em inúmeras letras
Concretas, violentas, discretas.

Nunca fingi amor.
Nunca pedi calor.
E o sonho, esse,
Já não é maior.

Amar sem língua, sem pele




Não consigo amar os dias
Se todas as estradas me parecem iguais,
Erradas,
Destroçadas.

Enveredei por atalhos,
Da vida retalhos,
Cabeçalhos
Ou rodapés,
Tenho todos os atalhos aos meus pés.

Não quero cair do pedestal outra vez.
Não quero que faça(s) sentido,
Que fique(s) comigo.

Não quero estrelas,
Nem o meu nome numa parede insípida,
Ou em páginas de amor sem vida,
Com (o meu) sangue dentro.

Não quero as lágrimas
Do desencaixe perfeito,
As inseguranças da solidão,
O ar rarefeito enquanto procuro perdão,
O futuro que vem,
Ou apenas um pouco de chão.
E um porto seguro.

Estou perdida em mim,
Dou voltas e mais voltas
E acabo sempre no mesmo lugar,
À procura de recuar,
Mas o tempo não cumpre
E o que me doeu...
Ainda mói.

Liberdade
Era viver tudo outra vez
Mas no trilho certo.

Estou sem rua
E sem tecto.
Estou sem tacto
E noção do que é errado ou correcto.
O coração pede 
E é certo:
Não é tempo ou tecto,
Nem cidade ou meta.
São ruas, trilhos, moradas,
Corpos com opções,
Mais corações.

Prisões.


Como me fui eu prender?