Carta aberta

outubro 08, 2015




Minha quimera,

Padeço de uma solidão convicta e deliciosamente voluntária.
A saudade invade-me os dias e entristece o meu coração. Porém, logo me ocorre que a saudade, para ser verdadeira saudade, é a falta que se sente do que foi, mas já não é. 
Então, tenho uma saudade miudinha do que já não é, nem pode ser e, para ser sincera, talvez até nunca tenha sido.
Não quero recuperar a ideia que hoje tenho de algo que não foi. Dói-me sentir que me doeu e eu nem senti.
Hoje, sinto-o em dobro,  e assim permaneço, sem saber como será o recobro de um coração que nos dói no passado.
O sentido, nas palavras que agora escrevo, é  não fazerem sentido algum. São meras composições não poéticas, desprovidas de sentido e sem carisma algum.

Não simpatizava com elas, até me enamorar.

E qualquer enamorado sabe que o problema de se estar enamorado é começar a romancear. Assim, fiz do teu corpo a tela que eu sempre quis pintar, da tua alma, o mistério que eu ansiei desvendar.
Tu, o meu mistério predilecto.
E eu, um enigma errático que escapou a toda a espécie de lógica.
Se me detive, e se medi cada palavra, foi somente por te ter querido sempre. No fundo, eu sempre quis conhecer alguém como tu. 
Não falo das roupas que vestes, do teu cabelo rebelde, das meiguice que quis ver no teu olhar. Não falo sequer desse teu sorriso delicioso, do teu jeito naturalmente sedutor ou da tua pele sempre morena.
Não, nada disso.
Gosto da tua genuinidade. Sem floreados. "Simples assim".
Alguém como tu, que me salvasse deste tédio dos dias sempre iguais, das manhãs invariavelmente frias e, sobretudo, das minhas mãos vazias e errantes, que, afinal, sempre procuraram as tuas.
Segura-as com firmeza, meu amor, pois já não existe dúvida alguma.
Sei que, um dia, serei o livro aberto que procuras e que eu outrora fui.
Oxalá não seja tarde, 
Que o Amor  se não cabe,
Ainda antes de começar.

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