Não era para ser assim

outubro 18, 2015

Gostava que o Inverno me trouxesse uma espécie de fé aconchegante, que me mostrasse que as nuvens nem sempre ocultam o caminho, que, embora encoberto, ele sempre esteve lá, à espera da hora certa para o percorrer.
Mas não possuo qualquer espécie de fé. Apenas o frio que entra pelas janelas que eu insisto em abrir, como que para amenizar a sensação de viver aprisionada numa realidade que não é a minha.
Quero voar daqui.
Não conheço estas palavras, estas amarras, estes corpos.
Não conheço as vozes que calam a minha voz, as lâminas que me cortam as asas sempre que consigo de alguma forma libertar-me deste sufoco.
Existem mil uma formas de se aprisionar uma alma e nenhuma delas, seja qual for o motivo, é menos vil, menos maliciosa, menos egoísta.
Estou sem ar, sem sonhos, sem tempo.
Estou sem chão, sem sorriso, sem vontade.


Nunca fui uma pessoa triste.
Até triste ser a única palavra capaz de me definir, ou de alguma forma expressar o estado de uma alma que já não é a minha, de um coração que eu já não tenho, de um corpo inerte sem saber como sobreviver.
Todos os dias são iguais. Insuportavelmente iguais. A música de fundo, sempre com a mesma letra "Nunca irás conseguir"... "Nunca irás conseguir". A certeza de que vou a esfumar-se... A inevitabilidade das consequências.
Consequências.
Por vezes, o "amor" exprime-se em consequências: rancor, desdém, uma necessidade constante de inferiorizar o outro.
Quem diria que o "amor" serviria de rótulo a esta prisão asfixiante na qual não nos resta senão acenar, sem falar, sem existir, sem respirar sequer.
"Amor", essa não-existência humilhadora e desrespeitosa.

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