I wish you all the best*

outubro 13, 2016

Decidi escrever este post, ciente do risco de este blog começar a assemelhar-se a uma colectânea de fracassos, infelicidades ou infortúnios. Ainda assim, decidi fazê-lo, porque sim, porque gostaria de partilhar isto aqui e porque talvez, apenas talvez, isto ajude alguém a sentir-se melhor.
Fui vítima de bullying entre os 13 e os 16 anos. Tudo começou com ofensas tontas, escárnio, risinhos, nomes menos simpáticos, exclusão e boatos. Os boatos foram a pior parte, para mim. Habituei-me a conviver com isso, diariamente, durante 3 anos consecutivos. Não pensem que era só eu a "vítima". Não era. Era uma dinâmica, grupo contra grupo, um insultava, o outro deixava-se insultar. Porque toda a gente sabe que quem manda são "os mais fortes". Mas o pior eram os boatos que uma "amiga" minha inventava para tentar entrar para o grupo dos "fortes", escusado será dizer que nunca caiu nas suas boas graças. Mas lá vingou na vida, porque gente que espezinha gente vinga sempre.
No final desses três anos, mudei de escola: eu e parte da minha turma: a fórmula do caos estava pronta a explodir.
Sempre tive o meu grupo de amigos e parte desse grupo mudou para essa escola, por isso tudo corria lindamente. Melhor ainda: mal cheguei a essa escola, por intermédio de uma excelente velha amiga, conheci um monte de gente nova, tinha uma série de pretendentes, uma vida feliz e expectante.
Até que, passados 2 ou 3 meses tudo recomeçou. Desta vez, chamavam-me nomes menos simpáticos porque tinha dinheiro, era uma betinha, etc etc. Mas o que começou por aí e por outros pormenores que vou omitir sob pena de, eventualmente, ser  identificada por alguém que leia isto e até me conheça, depressa evoluiu e passou a um burburinho constante nas aulas, chamando-me esta e aquela (e às minhas amigas, bem como a outras pessoas da turma), todo um ritual de gestos obscenos, encenações obscenas, insultos em frente a professores (que nada faziam)... Só chorei em público uma vez, de desespero. Corria para o wc para chorar em privado. Quase deixei de comer. Pouco tempo passava na escola, ia e voltava a chorar e o choro só cessava quando pousava a cabeça na almofada e finalmente conseguia adormecer. Perdi peso. Perdi ânimo. Desliguei-me de tudo menos da dor que estava a sentir. E não, eu não podia fazer-lhes frente, era um grupo inteiro, de rapazes, liderados pelo macho-alfa, contra nós, sendo eu o alvo favorito. Um dia vim-me embora e não voltei mais à escola. Já tinha dado conhecimento da situação, mas interpelar os bullies só piorou a situação, tudo se intensificou,
Perdi todas as amizades. Parte da turma pensava que era melhor não fazer frente aos bullies, para não serem alvo deles. A outra parte, bem, achavam-me fraca porque eles aguentaram e eu não.
Fui para uma escola nova, fui muito bem recebida por todos, fui rapidamente integrada, ao fim de algum tempo senti-me feliz. Apaixonei-me. Apaixonei-me pela vida, pelos amigos, pela comunidade em geral. Tive professores que eram excelentes pessoas. Tive 3 anos lindos com todos eles. Não perfeitos, mas lindos. Os melhores anos da minha vida. E por isso sou-lhes eternamente grata, a eles, por serem as pessoas lindas que foram e ainda hoje são ,
Depois segui para a faculdade e tudo se complicou. Estava de novo sozinha, numa área completamente nova. Fiz algumas amizades no princípio, mas parte das pessoas trocaram de faculdade, outra parte não tinha aulas comigo e lá os fui perdendo de vista.
A verdade é que foram os anos mais solitários para mim. Senti-me muito mal, por vezes.
Aquele não era o meu meio, a minha casa.
Mas eu sei que a culpa também era minha. Fechei-me em mim, com medo de que a minha história de vida me perseguisse. Porque, quer queiramos quer não, o mundo é pequeno e algumas pessoas conheciam a minha história, mas como grandes pessoas que eram, não me julgaram, apoiaram-me e acarinharam-me. Mas como é que eu sabia como iriam reagir estas novas pessoas na minha vida?
Nunca estabeleci laços fortes durante o meu tempo na faculdade. Falava pouquíssimo sobre mim, não me entregava às pessoas. Não era capaz. Limitava-me a ser cordial e a manter uma relação circunstancial, quase profissional com os meus colegas. Raramente fui eu a aproximar-me.
E isso tem um preço, bem alto, que é o preço que pago actualmente: a solidão.
Por isso o meu conselho (para quem estiver a ler e para mim no futuro) é: não se deixem moldar pelas más experiências que tiveram no passado, pelas pessoas cruéis que foram conhecendo, pelos nomes que vos chamaram. Vocês não são nada disso, nada. Certamente serão pessoas lindas, sensíveis, bons amigos e bons companheiros.
Hoje eu só queria que aqueles 3 anos não tivessem destruído a minha vida e, acima de tudo, que não tivessem morto a menina alegre, doce e tão dada que outrora eu fui. Um dia fui um livro aberto. Hoje não sei se serei capaz de mostrar mais do que uma capa a alguém. Sou uma máscara de ferro, fria, algo insensível, distante. Sou acima de tudo distante. 
Mas sabem o que é irónico? Adoro a companhia das pessoas (à distância), os "bons dias", os pequenos gestos, ouvir as suas opiniões... Apenas não as deixo entrar. Não consigo.
Outra coisa que não consigo deixar de fazer é procurar saber o que os bullies andam a fazer, se parecem felizes... Isso não leva a nada, eu sei. Mas não o faço por raiva. Aliás, hoje apercebi-me finalmente da indiferença lhes tenho. O que eu gostava de saber era como pessoas assim vivem com elas próprias. Não percebo, Só desejo que sejam felizes e que os nossos caminhos se não voltem a cruzar.
Outro erro é ver nas outras pessoas traços dos bullies e afastá-las ou então se forem conhecidos desses bullies descartá-las logo. Pode ser preconceito, Ou então é uma defesa. Não sei...
Aos que passaram por isto, tal como eu, melhores dias virão. I wish you all the best and beautiful things in the world*

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3 comentários

  1. Fui vítima de bullying até à faculdade, por usar óculos (há 30 e tal anos poucos miúdos usavam óculos) e por ser, na altura muito rechonchuda. Depois que conheci o meu marido, aprendi a gostar de mim exactamente como era. Na verdade, entretanto, tinha perdido 27 quilos.

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  2. Apesar de já seguir o teu blogue e gostar de te ler, após teres exposto a tua história passei a gostar ainda mais. Tenho a certeza que a menina por detrás deste blogue é forte e superior a qualquer circunstância, porque pensa... apesar de tudo, "sobreviveste" (faço entender-me?). Deixou lacunas, tudo bem, mas acredito que com o tempo isso vai atenuar.
    Relativamente ao teu comentário no meu post sobre as expressões alentejanas, já tinha conhecimento que algumas se tinham expandido para outras regiões. Pessoalmente a "tás aqui, tás a comê-las" é uma que uso com alguma frequência! xD
    Um beijinho, Ellen

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  3. Descobri o teu blog ontem e pareceu-me interessante. Muita força, também padeci desse "mal" durante a minha primária e secundária. Quando entrei na faculdade deixei para trás esse momento da minha vida, afastei-me dessas pessoas que me ridicularizavam e segui em frente. Hoje, cresci e percebo que sou mais forte e mais corajosa do que todas essas pessoas, e que vou conseguir chegar mais longe. Muita força e um beijinho :D (ps dá uma olhadela no meu blogue :)) Devemos ser positivas sempre e nunca desanimar nem desistir apesar dos problemas!

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