Reticências

novembro 05, 2016


Ontem, enquanto atravessava o cais, dei por mim a pensar que aquela cidade era mais tua do que minha. Porque é, na verdade. Toda ela me recorda um bocadinho de ti. Todas as portas, todas as janelas, os vitrais, as ruas apertadas, as gentes modestas e as boas famílias. Tudo me recorda um pouco de ti.
Depois, olhei em volta e deixei que os meus olhos repousassem no rio. Não era o rio que eu contemplava. Eram as luzes imensas reflectidas naquelas águas turvas e sofridas.
Sabes o que vi nelas?
A luz que emerge das lágrimas que eu já chorei por ti. Digo chorei, no passado, pois foi lá que eu as deixei, junto das nossas fotografias, das nossas viagens, dos nossos beijos e abraços, junto até das palavras que nós não dissemos e dos silêncios que sem querer abafamos.
Deixei-me embalar pela nostalgia, procurando abstrair-me desses pensamentos obstinados que começavam e terminavam com o teu nome. O teu nome... Como eu amei o teu nome! Tem tanto de peculiar como tu. Assenta-te bem. Condiz com a tua beleza imponente e singular. 
Eu não te amei pela tua beleza, ao contrário do que tu pensas.
E hoje eu só queria dizer que é mentira que te amo, que te quero e que te preciso. Mas não é.
Não havia nada de ti na cidade, no cais ou nas ruas.
Tu estás em mim, isso sim, como o sangue que me corre nas veias, como um veneno necessário e doce, que ora me destrói, ora me faz renascer.
És a doença e a cura, o mal e o bem, o presente e o futuro.
És o meu futuro.
Ou, pelo menos, eu queria que o fosses...

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5 comentários

  1. Não sei muito bem se este texto é relativo a uma ex-relação tua ou se é algo que escreveste só porque sim, mas seja como for é um texto fantástico. Se for real, lamento, mas verás que com o tempo encontrarás alguém que faça ainda mais sentido*

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  2. Adoro :o
    R.Também espero que sim, sinceramente.

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  3. Adorei o texto, gosto muito de como escreves.
    Que o que não te faz bem saia da tua vida e deixe entrar o melhor que está por vir.
    Beijinhos

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