Testemunho: sem filtros

março 20, 2017

Se não me engano já tinha falado aqui acerca do meu peso, sobre toda uma maré de críticas e desdém que ele originava, sobre o facto de eu NUNCA ser escolhida para formar equipas na escola por ser gorda e desajeitada... Bem, gorda eu já não sou. Quanto ao desajeitada... ☺
Eu nunca me aceitei? Mentira.
Está tudo na nossa mente, mas isso não é novidade nenhuma, certo?
Vou poupar-vos aos pormenores... mas partilho apenas o seguinte:
Nunca fui tão feliz como quando era gordinha.
E nunca estive tão triste e sozinha como quando fui magrinha.
E vocês perguntam - isso tem a ver com o volume do teu corpo? Não, não tem.

Na verdade, apesar de triste e sozinha, eu me sentia uma rainha. Amava o meu corpo apenas com curvas onde eu as queria. Amava caber em qualquer roupa, usar uma mini-saia colada, delineando o traseiro e realçando o quão magras e bonitas as minhas pernas eram. Mas eu tinha de esconder os meus ossos das ancas, porque nem com duas camadas de roupa deixavam de se ver. Eu tinha vergonha de usar manga cava porque, para cima, toda eu era esqueleto - com mamas, vá lá.  Se calhar agora estão a pensar que eu estava doente. Não, felizmente não. Não que não ouvisse toda a hora a minha família a acusar-me de ter anorexia. Mas do que eu sofria mesmo era de ansiedade. E de perfeccionismo. 
Eu sempre quis ser perfeita do meu jeito. Ter bochecha de modelo, covinhas junto do pescoço, ossinhos visíveis na zona do decote apenas porque acho sexy demais. Hoje eu não tenho. Nem ligo muito para isso...
Independentemente da forma que o meu corpo assuma, o meu estado de espírito é que comanda tudo. Então eu luto, luto sim, para alcançar o máximo de Paz, tranquilidade e felicidade possíveis.

Mas toda a gente tem dias maus. Eu também tenho, mesmo que, no geral, me sinta invadida por uma bonita onda de positividade, esperança e Paz.
Hoje foi um desses dias. Toda a foto parece ficar feia: ou porque o cabelo está com frizz, ou são os olhos que ficam fechados ou fico com uma cara de totó inexplicável. E o que eu quero explicar com este texto enorme é que não importa o quão perfeitos nós somos: isso nunca será suficiente se não nos amarmos o suficiente. Eu amo-me, sou feliz e estou super orgulhosa de mim. Mas há muita coisa que eu tenho que trabalhar para aceitar. E o caminho é longo.
Posso estar perto do peso que idealizei, mas conforme partilhei com uma "colega de batalha", hoje eu sofro com foliculíte e quelóides. Penso que foliculite é a inflamação dos folículos pilosos, que causa pequenas borbulhinhas em algumas zonas do corpo, em especial, onde temos pêlo, após depilação, fricção, etc. E, claro, deixa marcas. As quelóides são um tipo de cicatriz dura, parece um carocinho e forma-se após uma inflamação derivada de uma borbulha, buraco de orelha inflamado, etc.

Então, eu luto muito contra isto e não arrumo maneira de me livrar desses problemas. Tem dias em que isso arrasa comigo e faz com que a ideia de me imaginar despir para alguém seja um ato impraticável na minha cabeça.
Eu - menina sonhadora e cabeça erguida - também tenho as minhas dúvidas! Não sei se alguém algum dia será capaz de amar o meu corpo "marcado".

As minhas maiores dificuldades? Vocês sabem... O espelho, a nudez (devido às marcas, não devido às formas do meu corpo) e até o banho. Banho diário ou duas ou três vezes ao dia, dependendo - é luta constante. Mais um pretexto para - obrigatoriamente - ter que encarar o meu corpo nu e imperfeito. Então eu pergunto-me: o amor chega? Não deve chegar se eu me amo e não consigo amar a minha pele, a minha face no espelho, o formato das minhas pernas... Será que algum dia venço a luta? Eu não sei.

Mas enquanto isso eu vivo. E eu quero viver muito! Quero muito muito viver, mais do que tudo nessa vida! E é esta sede de vida que me mantém alegre e esperançosa e que faz tudo isto parecer um problema menor - quando, por vezes, não é.

Eu tenho muitos defeitos. E, ter dificuldade em falar sobre estas coisas, talvez seja um deles.
E aí eu levo muita chapada da vida, muito abre-olho... E, em vez de chorar quando me dá vontade, eu agradeço e tento melhorar. Simplesmente, melhorar. Eu não peço demais. Não exijo demais.
Tem outros dias em que a bênção é tão grande que eu transbordo de felicidade. E, nesses dias, do mesmo jeito, eu só peço para melhorar.

Eu sei que o caminho é longo e muito há a fazer.
Não quero mais pensar. Agora, estas letras que vos escrevo, são vossas e não me pesam mais no coração.

Quando não aguentarem, façam como eu: coloquem uma música calminha de que gostem e durmam. Pensem como a Scarlett, de "E Tudo o Vento Levou" e deixem para amanhã. Digam: "eu amanhã penso nisso". 
Muitas vezes, ao acordar, perceberão que já passou.

Um novo dia começou. É hora de acordar e ir viver.
A vida não é só feita de pedras no caminho.



Obrigada pela inspiração, Marli Neves de My Own Anatomy. Vejam o post dela ;)


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4 comentários

  1. Percebo-te tão bem. Aqui há umas semanas publiquei uma espécie de poema em que digo estar apaixonada por mim. Sim, é verdade. Mas estou apaixonada pelo que sou, pelo que descobri ser: uma lutadora.
    Pois na verdade continuo a olhar-me ao espelho e a sentir-me um farrapo. Feia, gorda, alta. Enfim... só coisas más, portanto.

    Mas é o que dizes... é um caminho e é para ser feito com calma... É o tal objectivo: O Biquíni Dourado da princesa Leia! É uma metáfora para um bem-estar que se quer geral :)

    Um beijinho dourado

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    1. Oh... ser alta é bom :)
      Aposto que n és assim como te vês. Mas acredito que és uma lutadora.
      Sim, bem-estar e FELICIDADE! :)

      Beijinhos e boa sorte nesse teu caminho*

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  2. ui, identifico-me muito aqui nalguns pontos mas querida, temos que nos tentar aceitar ao máximo! Só temos um corpo!

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    1. Verdade. Mas podemos melhorar algumas coisas, certo?

      Sim, só temos um corpo temos que amá-lo :)

      beijinhos

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