Não era para ser assim

abril 21, 2017

Envelhecemos e nem fazemos amor.
Os olhos cansados não se fecham, porém, conseguimos já vislumbrar mais estrelinhas no céu.
É chegada a hora. Talvez não seja hoje, ou sequer amanhã, mas a partida é inevitável.
Já não sabemos o que fazer com o carinho que nos transborda. Entrega-mo-lo ao Destino? Deixamos a nossa Felicidade nas mãos da efemeridade?
Ou fecha-mo-nos dentro de nós, com o corpo em forma de concha, procurando evitar a fugacidade com a qual a Morte nos rouba tudo aquilo que amamos?

A Morte...
Esse motor da sede da vida que teima em deixar os vivos mais mortos que os próprios mortos. Deveríamos nascer com um guia que nos ensinasse a lidar com as perdas.
Ao invés de aulas sobre alimentação saudável, cidadania e sexualidade, deveriam ser ministradas aulas sobre a Morte, o Luto e a Perda.
E, acima de tudo, alguém deveria ensinar-nos como se vive depois de alguém.

"Como se vive... Depois de Ti?"
"Como se vive... Sem ti?"

Porque sem ti o meu depois já não fará o mesmo sentido (isto partindo do pressuposto de que ainda permanecerá algum sentido em estar-se vivo...) depois de partires.

Tudo isto para dizer, de uma forma que eu pensei ser a menos dolorosa, que a cada reencontro eu sinto a despedida mais próxima. Eu sinto a Morte a aproximar-se, cavalgando na sua direcção. E eu não quero nem posso perder mais duas estrelinhas, cuja luz já começa a ser tão ténue.
Eu não aguento outras despedidas; nem aguento não me despedir.
E se não houver tempo?
E se eu me acobardo e perco a coragem?
E se a vida me leva primeiro?
E se...?
E se...?
E se...?


Odeio "ses".
Eu não quero mais envelhecer. Não quero ter de contar os dias todos iguais.
Não quero que a dor seja o único motivo de conversa.
Não quero que as lágrimas me lavem a face todos os dias, mais do que uma vez.
Não quero deixar de fazer amor.
Não quero deixar de dar gargalhadas desajeitadas.
Não quero deixar de subir as escadas a correr.
Nem de correr em direcção à liberdade.

Eu quero ser para sempre livre. Corpo, mente, espírito e coração.
No entanto, quero um coração bem "atado" que sempre saiba onde é a sua casa, onde quer e pode sempre voltar.
Quero perder-me nessas ruas que conheço como se fossem minhas, apenas para me reencontrar vezes sem conta, 
Repetidamente, eternamente,

Mas não quero... não quero chorar de cada vez que as atravesso por saber que lá ficou um pedacinho do meu coração.

O que fazemos, quando o nosso lar, é o lar de todos aqueles que amamos?

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