O peso de ser (")bom(")

abril 19, 2017

Partimos muitas vezes da asserção (quase sempre errada) de que ser bom é uma bênção, uma vantagem; que acarreta benefícios e facilidades ao longo de toda a vida. Mentira!
Ser bom é, muitas vezes, prejudicial. Ser mediano, sem querer ofender com isto ninguém, é muito mais fácil.
Em criança ninguém presta muita atenção ao facto de seres estranho, introvertido ou mais atento ou focado nos pormenores do que as outras crianças. Ainda assim, tens brincadeiras diferentes, desprezas a violência e não te apraz gozar e humilhar os outros.
Um dia cresces, adquires responsabilidades e, tanto tu como os teus companheiros, começam a construir uma consciência, vulgo, uma auto-consciência, bem como uma consciência do outro, enquanto "pessoa".
Passas de "certinha" a "cabra" apenas porque tens melhores resultados do que os teus colegas. As humilhações são constantes. Riem-se na tua cara quando apresentas um trabalho apenas porque querem arrasar com o teu valor/empenho/moral/motivação. Tu não disseste, nem fizeste nada de errado. E não são disparates as palavras que te saem dos lábios. Ainda assim, és a chacota predilecta, somente porque os outros não suportam o teu sucesso.
Para piorar a situação, os professores destacam-te, porque, de alguma forma, apreciam o teu trabalho, a tua criatividade e empenho permanentes, a tua dedicação, bem como a disciplina e exactidão com que executas tudo aquilo quanto te propões fazer. Lês textos em voz alta. Merda! Textos sobre o amor, a humildade, a alma e a fé. Textos sobre humanidade e escravidão. E as pessoas gozam-te por isso: porque, no fundo, além de seres "bom", também és bom.
Podem virar-te a cara e cuspir insultos. No minuto seguinte correm para ti: pedem-te que os ajudes com os trabalhos de casa, vulgo, pedem para copiá-los; pedem-te ajuda nos testes de 5 em 5 seg; solicitam sempre os teus apontamentos sem hesitar; e, no entanto, volvidos outros 5 seg, viram-te a cara.
Um dia, és um vulto que passou e não ficou.
Um vulto que espezinharam; ou amaram. Mas que não ficou.
E tu não quiseste ficar. Tu não te impões.
Aprendeste a ficar no teu lugar e a encontrar um equilíbrio seguro entre o ser "bom" e o ser "medíocre". Atingiste finalmente a medianidade
Tu não queres ser bom. Muito menos mediano! Queres ser, antes e apenas, invisível. Tu sabes que ser "bom" acarreta um custo insuportável, então, limitas-te a ser imperceptível, quase vulgar, ainda que vulgar tenha sido algo que tu nunca foste.
À medida que os anos passam, sentes que a tua especialidade morreu em ti. A tua humanidade ficou adormecida e a luz que irradiavas fundiu em ti.
Os teus colegas não te suportam; suportam, pois! A troco de tantos e muitos favores.
A tua família impõe-te patamares sobrehumanos de excelência, ao mesmo tempo que te descrimina. Tu não podes ser bom. Ser bom é um risco, uma rebeldia, um acto de violência. Um assassinato frio da mediocridade. E a Sociedade não está preparada para lidar com isso. Não agora, não hoje, não aqui.
Olhas em redor e observas aqueles que ocupam o pódio que um dia também foi teu. No fundo, tu sabes que os admiras, mas não os invejas, porque sabes o peso que carregam nos ombros.
Pudera eu ter a descontracção que eles têm! Pudera eu deixar voar o meu nome, o meu rosto, as minhas letras; letras que percorrem mãos desconhecidas; ou malconhecidas, sem "ois" ou agradecimentos.
Pudera eu não me importar. 
E não me importo.
Mas eu não quero pertencer ao gueto que a Sociedade criou para aqueles que são "bons".
Esse gueto, é, na verdade, um clube especial e exclusivo. Tu não o escolhes, ele é que te escolhe a ti.
Para isso, basta...
Ser "bom" e, além disso, seres bom.

Isto é só um grão de areia do deserto de tudo aquilo quanto tenho a dizer acerca da palavra bullying.

O bullying atinge, sempre, os melhores.
Os "fracos" de coração mole; os "bons" sem pulso firme; os feios que são verdadeiras pinturas impressionistas por dentro; os gordos que de gordo só têm mesmo o coração - porque ele é grande - e ninguém quer ver o tamanho de um coração! 
Atinge os pobres que não são, de todo, pobres de espírito; atinge os "diferentes" que são especiais; atinge os artistas, os matemáticos, os escritores, os informáticos, os poetas, os biólogos; atinge os cantores de rua; os mendigos; os estrangeiros; os refugiados; os "negros"; as almas puras; os mais belos; os mais negros (deprimidos e oprimidos); os desorientados; os perdidos; os desencontrados...

Toca a todos. Porque um Mundo que é sempre e todo igual não está preparado para conviver com/ aceitar a diferença.

E, vistas as coisas por este prisma, ainda quererias ser diferente?
O que há de bom, em ser-se "bom"?

Nunca é o bom que ofusca; o bom é ofuscado antes mesmo de ter a oportunidade de brindar os outros com a Luz que irradia. 

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2 comentários

  1. Revejo-me muito neste texto. Fui assim, até ao dia...até ao dia em que me pus acima de todos os outros que não as minhas filhas dentro do meu coração e da minha alma. A minha paz acima de tudo.

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    1. Compreendo, mas ainda não consegui alcançar esse estado de Paz. Ainda sinto por vezes a necessidade de me camuflar, de me esconder, por assim dizer...
      Não sei.
      Acho que só com o tempo aprenderei qual é a postura/forma de estar que me assenta bem. As pessoas podem mudar. E se calhar eu mudei. Ou não.
      O tempo o dirá :)

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