Thoughts



Tenho uma saudade infinita dos dias em que escrevia.
De escrever todos os dias e de sentir que aquilo fazia sentido.
Tenho uma saudade infinita de sentir, de ser feliz: por tudo e por nada.
Eu não acredito no destino. Eu não acredito em Deus.
Mas acredito muito nas palavras e no amor que vai dentro delas.

It May be Christmas

(Menos de dois meses até ao Natal.
Há um mês com uma saudade agridoce da época natalícia.)


Por aqui o Outono nunca foi tão frio. A rotina aborrece-me.
O meu coração está numa espécie de caos ininterrupto. 
O tempo escasseia e eu apenas consigo sentir a minha cabeça a andar à roda.
Todos os planos que fiz, todos os sonhos que um dia tive, escaparam-me por entre os dedos. 
Tenho uma merda de um passado que não me deixa seguir em frente.

Para quê alistar-me noutra guerra, se perdi todas as batalhas em que me envolvi?...


Não era para ser assim

Gostava que o Inverno me trouxesse uma espécie de fé aconchegante, que me mostrasse que as nuvens nem sempre ocultam o caminho, que, embora encoberto, ele sempre esteve lá, à espera da hora certa para o percorrer.
Mas não possuo qualquer espécie de fé. Apenas o frio que entra pelas janelas que eu insisto em abrir, como que para amenizar a sensação de viver aprisionada numa realidade que não é a minha.
Quero voar daqui.
Não conheço estas palavras, estas amarras, estes corpos.
Não conheço as vozes que calam a minha voz, as lâminas que me cortam as asas sempre que consigo de alguma forma libertar-me deste sufoco.
Existem mil uma formas de se aprisionar uma alma e nenhuma delas, seja qual for o motivo, é menos vil, menos maliciosa, menos egoísta.
Estou sem ar, sem sonhos, sem tempo.
Estou sem chão, sem sorriso, sem vontade.


Nunca fui uma pessoa triste.
Até triste ser a única palavra capaz de me definir, ou de alguma forma expressar o estado de uma alma que já não é a minha, de um coração que eu já não tenho, de um corpo inerte sem saber como sobreviver.
Todos os dias são iguais. Insuportavelmente iguais. A música de fundo, sempre com a mesma letra "Nunca irás conseguir"... "Nunca irás conseguir". A certeza de que vou a esfumar-se... A inevitabilidade das consequências.
Consequências.
Por vezes, o "amor" exprime-se em consequências: rancor, desdém, uma necessidade constante de inferiorizar o outro.
Quem diria que o "amor" serviria de rótulo a esta prisão asfixiante na qual não nos resta senão acenar, sem falar, sem existir, sem respirar sequer.
"Amor", essa não-existência humilhadora e desrespeitosa.

E um dia voltar



Essas paredes,
Construídas sobre recordações
De sentimentos que não chegaram a ser.
Sempre senti uma vazio de alma, aí,
Onde os corpos se cruzam
E o ar é invariavelmente frio.

Subi degraus, dobrei esquinas
Sem sequer saber onde me encontrava
Por onde ia,
Onde queria chegar...

Não quero voltar.

Não me basta o mar,
Não me bastam as melodias,
A beleza do espírito
Ou o enternecer do corpo.

Quero o meu mar,
As ruas que eu já percorri
Sozinha,
De braço dado,
Lado a lado...

Quero as melodias 
Que são minhas,
Os amores que eu perdi,
As vitórias que eu alcancei.

Quero recordar-me que errei,
E seguir caminho,
Com o sorriso e o carinho
Que um dia eu lá deixei.

Eu senti.
Senti nas notas,
Senti no corpo,
Na pele,
Nos meus dedos ,
Nos pés que se não queriam mover.

Eu senti
Que um dia iria perder,
Sem sequer ter jogado.

Senti que o Inverno aí é mais frio
E a Primavera bem menos solarenga,
As folhas não caem, as flores não florescem,
As gotas de orvalho sempre secaram
Bem antes de as contemplar.

Eu nunca pertenci a esse lugar.

Carta aberta




Minha quimera,

Padeço de uma solidão convicta e deliciosamente voluntária.
A saudade invade-me os dias e entristece o meu coração. Porém, logo me ocorre que a saudade, para ser verdadeira saudade, é a falta que se sente do que foi, mas já não é. 
Então, tenho uma saudade miudinha do que já não é, nem pode ser e, para ser sincera, talvez até nunca tenha sido.
Não quero recuperar a ideia que hoje tenho de algo que não foi. Dói-me sentir que me doeu e eu nem senti.
Hoje, sinto-o em dobro,  e assim permaneço, sem saber como será o recobro de um coração que nos dói no passado.
O sentido, nas palavras que agora escrevo, é  não fazerem sentido algum. São meras composições não poéticas, desprovidas de sentido e sem carisma algum.

Não simpatizava com elas, até me enamorar.

E qualquer enamorado sabe que o problema de se estar enamorado é começar a romancear. Assim, fiz do teu corpo a tela que eu sempre quis pintar, da tua alma, o mistério que eu ansiei desvendar.
Tu, o meu mistério predilecto.
E eu, um enigma errático que escapou a toda a espécie de lógica.
Se me detive, e se medi cada palavra, foi somente por te ter querido sempre. No fundo, eu sempre quis conhecer alguém como tu. 
Não falo das roupas que vestes, do teu cabelo rebelde, das meiguice que quis ver no teu olhar. Não falo sequer desse teu sorriso delicioso, do teu jeito naturalmente sedutor ou da tua pele sempre morena.
Não, nada disso.
Gosto da tua genuinidade. Sem floreados. "Simples assim".
Alguém como tu, que me salvasse deste tédio dos dias sempre iguais, das manhãs invariavelmente frias e, sobretudo, das minhas mãos vazias e errantes, que, afinal, sempre procuraram as tuas.
Segura-as com firmeza, meu amor, pois já não existe dúvida alguma.
Sei que, um dia, serei o livro aberto que procuras e que eu outrora fui.
Oxalá não seja tarde, 
Que o Amor  se não cabe,
Ainda antes de começar.

Aparências



O teu sorriso é a expressão mais incoerente de sempre.
Recorda-me um carinho que já não é,
Mas que podia ser.

Parece que finalmente esgotei as potencialidades criativas
De desviver.
(Tenho medo).

O que faço aqui?
Por onde vou?

Não sei
Como se vive sem paixão 
(Que (des)ilusão).

Como vivem os desapaixonados?

Cinzento



Sou escrava de um amor sem nome,
De um ofício sem paixão ou calor,
Não sou escrava do Amor.

As palavras perdem o gosto,
E as luzes parecem enfraquecer
À medida que o tempo passa.

Só me resta escrever,
Ou sofrer,
Ou um dia amadurecer.

Hoje apenas O procuro.
Procuro Deus
Porque não te creio,
Porque não lhe creio,
E, no silêncio que, assim, em mim fica:
Nem em mim creio.

"Creio no Amor como quem crê em Deus".
Tolos aqueles que confiam o seu coração
A um semideus:
Meio homem, meio pecador, meio manipulador.
Não to confio.
Não lho confio.
Apenas mo confio.

Talvez o problema resida
Em eu ser já inteira,
Por mim só.

Sou livre,
Vivendo na aparência de um cativeiro quase vil,
Sou o tumulto,
Reflectido no silêncio da minha alma emudecida,
Adormecida,
Fingida.

Sou a voz,
Que um dia murchou
E se fechou em inúmeras letras
Concretas, violentas, discretas.

Nunca fingi amor.
Nunca pedi calor.
E o sonho, esse,
Já não é maior.

Amar sem língua, sem pele




Não consigo amar os dias
Se todas as estradas me parecem iguais,
Erradas,
Destroçadas.

Enveredei por atalhos,
Da vida retalhos,
Cabeçalhos
Ou rodapés,
Tenho todos os atalhos aos meus pés.

Não quero cair do pedestal outra vez.
Não quero que faça(s) sentido,
Que fique(s) comigo.

Não quero estrelas,
Nem o meu nome numa parede insípida,
Ou em páginas de amor sem vida,
Com (o meu) sangue dentro.

Não quero as lágrimas
Do desencaixe perfeito,
As inseguranças da solidão,
O ar rarefeito enquanto procuro perdão,
O futuro que vem,
Ou apenas um pouco de chão.
E um porto seguro.

Estou perdida em mim,
Dou voltas e mais voltas
E acabo sempre no mesmo lugar,
À procura de recuar,
Mas o tempo não cumpre
E o que me doeu...
Ainda mói.

Liberdade
Era viver tudo outra vez
Mas no trilho certo.

Estou sem rua
E sem tecto.
Estou sem tacto
E noção do que é errado ou correcto.
O coração pede 
E é certo:
Não é tempo ou tecto,
Nem cidade ou meta.
São ruas, trilhos, moradas,
Corpos com opções,
Mais corações.

Prisões.


Como me fui eu prender?




Paralelipípedo-pirâmide



Serei capaz?
Serei capaz de cair nos teus braços e fechar os olhos,
Segura,
Quente,
Aconchegada
No bater de um coração
Que desconheço.
Serei capaz
De aprender
De que cor se fazem os teus olhos,
Com que palavras se compõe o teu sorriso
E quais as portas
Que te fazem sonhar.
Serei capaz de ser para ti fé,
De aceitar a tua descrença
De superar a diferença
E de agradecer a deus
Por te ter colocado no meu caminho.
Não sou Fé
Mas, por ti,
Posso ser tudo quanto quiseres.
O Amor é um emaranhado complexo de vontades,
De à-vontades,
De Paz
E de carinho.

Vontades limam arestas?




Reverse


Se as ruas estão cheias
E as pessoas vazias,
O que perco eu?

Tesouras


Os meus cabelos loiros pousam sobre os ombros,
Sem vida.
Os meus olhos 
Encaram fixamente o vazio 
Que deixaste deliberadamente na minha vida.

Ás vezes acho que sou um animal de hábitos.
Já me acostumei com a tua ausência.
Não tardou,
Pelo menos não tanto
Quanto tu tardaste.

Já me não entristece 
Ir esquecendo aos poucos os contornos da tua face,
Conforme sucede nos filmes que me ocupam os tempos mortos
Mas mais repletos de vida
Do que eu algum dia cri ser possível.

Eu posso amar outra vez.
Outras vezes.
Incontáveis dias
E noites
E sonhos.
Eu posso amar.

Foi bom
Descobrir,
Descobrir-te,
Descobrir-me,
Conhecer-me.

Partir.

Quero um infinito
Que não creio
Que algum dia sejas capaz de descobrir.
Não te deixo sinais
Ou pistas,
Nem memórias.

Memórias pertencem ao passado.

Não fomos
Passados,
Momentos,
Interrupções.
Erupções de sentimentos
E convulsões de emoções 
Inexplicáveis,
Inconfessáveis,
Irrepetíveis.

A felicidade não se repete.
Simplesmente muda de forma,
E dignifica-se.


Encontrei o caminho para casa.





Escuridão



Entristece-me a alegria com que brincas
Nas luzes da rua,
Na escuridão do meu olhar
Que sempre me surpreende,
Debruçando-se em ti.

Brincas
Nas luzes da rua
Com o mesmo entusiasmo 
Com o qual um dia eu brinquei.

Brincas 
Com o sorriso 
De quem ainda acredita
Que a felicidade 
É bem real
E jamais será uma falácia absurda,
Um engodo do destino.

Brincas
E eu observo.

Para onde vamos?


No sense

Que se lixem os sonhos.
Há sempre um dia, nas nossas vidas, em que percebemos que os castelos no ar são apenas isso: esboços, desejos, aspirações. 
Que nem sempre os beijos mais quentes nos trazem o aconchego de que precisamos.
Que precisar não é bom, mas que, por vezes, é inevitável.
Que se lixem os sonhos, os amores de novela, os hollywoodescos também.
Que se lixe a perfeição, ainda que perfeitamente imperfeita.
Que se lixem os príncipes. Os médicos, advogados, CEOs.
Que se lixem os corpos esculpidos, os sorrisos doces, os atrevidos e os olhares que pedem mais.
No final apenas nos recordamos de uma coisa:

“Respirar só vale a pena por haver momentos em que perdemos a respiração.
Respira. Fifinha Proust respira pouco. Mas está muito viva. 

A vida não se mede em respirações. A vida mede-se em faltas de respiração."
"In Sexus Veritas", de Pedro Chagas Freitas


O coração saltou uma batida. Não me faltou o ar.
Quis sorrir.
Quis chorar.
Lar.

Veias


As luzes
Não me trazem a luz que procuro.
Procuro fundo,
Procuro no escuro,
Procuro vestígios do meu eu.
Perdi-o.
Perdi o eu.
Encontrei-o em ti.
Perdi-o outra vez.
Quero reencontrar-me outra vez
Comigo,
Com sonhos,
E planos
E menos aventuras.
Quero
Sentir que a sinceridade
Tal como a doçura,
Nunca se dá em demasia,
Nem por hipocrisia,
Que é verdadeiro
O que trago escondido no peito.
Não conheço esta rua,
Estas casas,
Estes risos.
Estou demasiado cansada
Para recomeçar tudo de novo,
Com um sorriso nos lábios
E a dor
De fingir que curei as feridas
Que não deixaram ainda de sangrar...


Fraqueza ou força



Trocas-me as voltas.
Voltas.
Partes.
Ficas.
Fazes.
Desfazes.

Conheci mundos além de ti
Esqueci,
Renasci,
Reinventei-me
Enquanto me procurava
E o encontrava.

Por vezes é só um mote
Ou um golpe de sorte,
Uma palavra que nos atingiu bem no coração
Ou o momento
Que é o certo
Pra ouvir uma mesma canção.

Não vem do coração.
Não.


Beleza apocalíptica


Percebi que não necessita fazer sentido 
Ou cumprir regras.
Que não importa o sentido 
Que tentamos impingir ao destino.
Há sempre algo de incoerente
Que nos faz voltar,

Independentemente de sabermos
Que nos vamos magoar no final.
Há sempre algo 
Que nos faz voltar,

E se a tentação de escolher outro caminho
For surpreendentemente forte,
O mais provável
É sermos arrastados pelo medo
E voltar.

Gostamos das dores que já são nossas conhecidas,
Acarinhamos as que já tratamos por "tu".

Não sei se será uma tragédia 
Na qual gostamos de nos perder,
Uma atracção magnética pelo caos
Ou apenas uma fatalidade doce,
Um carinho ferido,
E umas quantas ternuras
Que ficaram por contar.


Lápis



Leva-me contigo no coração.
Não sei para onde foram as palavras
Que um dia eu amei,
Os sorrisos que dei,
E o versos que esculpi
Só por gostar de ti.

Não sei
Por que foi o mais puro que senti.

Percorremos caminhos paralelos
Em jardins mais do que belos
E hoje
O que temos...
É tão pouco.

Vejo o teu reflexo em versos que não são os teus.
Fiz de ti poeta dos meus sonhos,
Meu primeiro amor.

Onde estão esses sonhos,
Essa simplicidade carinhosa,
Que te escorria pela voz,
Esses teus olhos tão negros,
Tão meigos?

A tua mão na minha,
A tua mão
Na minha cintura,
O teu corpo bem junto do meu?

O que foi que nos aconteceu?

Por ti aprendi a escrever sonetos
Tecidos com uma mestria infantil,
Alimentados apenas pela felicidade absolutamente indescritível
Que tu me fazias sentir.

O sangue a fervilhar nas veias
Não de excitação,
Mas de alegria.

O sorriso que da minha face não saía.

Aguardar-te
Sereno e seguro,
Com uma sagacidade sedutora
Que eu jamais conheci.

Hoje não queria falar de ti,
Voltar a ti,
Voltar aqui.

Hoje parti
E percebi
Que somos sempre
Uma única parte
Numa equação fatalmente irrepetível.

Leva-me contigo no coração.

Desarmonias



Se o mar for o mesmo,
Se eu chorar memórias antigas,
Se a saudade for mais forte
Do que os imprevistos da vida,

Se as palavras se repetirem
E a distância nem sempre me cair bem,

Se eu me quiser fechar em mim,
Não estar,
Não falar,
Nem respirar,

Se eu evitar
As pedras em que já tropecei,
Se rejeitar
Os muros que já me viram chorar,
Não uma,
Mas todas as vezes
Em que eu por lá passei,

Se
Eu desejar uma ponte
Só para dela saltar,

Se eu me sentir asfixiar,

Se eu não quiser conhecer ninguém novo,

Se eu não quiser mudar,
Fingir
Ou deixar de ser,

Não julgues,
Que eu percebo
Ou percebi somente,
(Ainda com a alma descrente
E o coração
Muito mais quente),

Eu percebo
Mas preciso ser entendida,

Como se fosse uma estrofe sem sentido,
Uma narrativa sem ter nunca parágrafo ou ponto final,

Como se fosse sempre
Um ponto de escuridão no teu dia,
Ou um foco de luz
Numa noite sombria.

Preciso de um abraço.
Mas não o quero.
Não quero prender-me em abraços,
Noutros braços,
Nos teus braços,
Em quaisquer laços,

Por isso,
Talvez seja mais simples
Ou pragmático
Ter o mesmo mar,
A mesma dor,
A mesma não-vontade de lutar
Numa luta que se arrasta
Ao mesmo tempo que nos destrói,
Constrói,
Reconstrói
E nos destrói outra vez.

Almas sem fé são assim.

Mas já alguém disse
Que de duas descrenças
Se não compõe
A mais perfeita fé?




Desvital



Como uma cerveja gelada.
A vida flui
Leve,
Fresca,
Amarga,
Intensa.

Quem me dera compreender
As ruas que não são minhas,
As rimas que perdi entre linhas,
As lágrimas deixadas em esquinas,
Desconhecidas,
Percorridas,
Desnorteadas.

Quem me dera mapear apenas sorrisos
E trazer apenas conquistas
Pra conquistar
Não corações,
Mas razões.
Porque é com a razão 
Que se conquista um coração que não.
Menos o meu.
O meu coração não.
Nem com,
Nem sem razão.

Quero saber 
Se a tua rua tem chegada.





Ventos



"Leite, leitura
 letras, literatura,
 tudo o que passa,
 tudo o que dura
 tudo o que duramente passa
 tudo o que passageiramente dura
 tudo,tudo,tudo
 não passa de caricatura
 de você, minha amargura
 de ver que viver não tem cura

                                                    Paulo Leminski

Mind



Já quis um Inverno doce.
Já quis um Inverno selvagem
Que pusesse à prova
Tudo quanto o tempo nos quis mostrar.

Já desejei cenários distintos
De uma mesma peça.
Desfechos felizes.
Descomeços.

Já tentei virar do avesso
Os princípios que tardei a estruturar.
Já transpus fronteiras
E logo desejei voltar.

Já pedi desculpas sem o sentir.
Já quis pedir desculpas de novo
Sentidas,
Doridas,
Inúteis.

Já dei razão
Sem o admitir.




Artes


Não sei se a poesia
É a arte de criar
Ou de ser criado.

Nitidez



A vida era nítida
Nas águas turvas
Que lhe levavam para longe os pensamentos.
Permitiu-se sentir,
Bem mais do que devia
E a memória já lhe pregava partidas.
Como se a sua vida
Não fosse mais do que uma manobra de diversão,
Uma comédia negra
Ou uma negra comédia
Sem final feliz à vista.
Mudara-lhe a vista,
Os gostos,
A escrita.
Roubara-lhe as palavras
Com o mesmo prazer
Com que se rouba um beijo.
Mas ela deu luta
E conseguiu reavê-las,
Brincar com elas,
Manipulá-las,
Com uma mestria
Que até aquele dia fora para si desconhecida.
Pelo caminho ficou-se o beijo,
O desejo,
A obra
E uns quantos credos
Sem suspiros ou medos.
Ela ficou,
Ao mesmo tempo que partiu.
E a vida seguiu,
Rodopiando,
Sem sair do lugar,
Mas mudando toda a paisagem.
- Não importa. - pensou ela.
A paisagem mudou.
O frio ficou.
Mas ela vingou.

Rascunhos II


Imaginei-me a percorrer os caminhos da imensidão contigo, a explorar vales, a contemplar colinas, rios e flores.
Imaginei-nos a sentir os odores, a trocar carícias.
Os beijos que vi eram nossos. As mãos, as nossas mãos. O amor... bem, nada se compara ao nosso amor.
Entendo agora que o amor tem muitas formas.
A memória de uma infância feliz, já meio adormecida, invadiu-me os pensamentos. Entrou sem pedir licença e apoderou-se de mim até as lágrimas ameaçarem começar a cair. Senti um misto de felicidade e tristeza.
Quis tanto, mas tanto partilhar isto contigo.
Senti que conseguirias compreender, como eu, que os vales nunca são só vales, nem as colinas apenas colinas, que há muito por detrás dos rostos e das palavras... Oh, as palavras, nunca serão só palavras. E, ainda que sejam palavras, nunca são as palavras que são, mas sim as palavras que o coração expulsou.
Quis que estivesses e sentisses. Queria que o sentisses comigo.
Não há palavras, no mundo inteiro, capazes de exprimir quanta vida existiu em mim naqueles momentos.


Rascunhos I


Quis percorrer os caminhos todos. O tempo era afinal demasiado escasso para fotografar todos os pormenores, captar todos os reflexos de um sol envergonhado, toda a história contada naquelas paredes antigas, todas as histórias que ficaram por contar, desenhadas nos rostos das pessoas que por lá deambulavam. 
Olhei a imensidão e senti-me pequenina. Pequenina e deslumbrada.
Como poderia tamanha beleza caber num olhar fugaz?
Não tirei os olhos da água cristalina e calma que num ápice conquistou toda a minha atenção. Esqueci a música, as pessoas, os automóveis que corriam pela rua. Esqueci até as casas, de uma arquitectura que em nada me era familiar.
Éramos nós, só eu e aquela água cristalina. Eu, na minha pequenez e a água cristalina, em toda a sua imensidão.
Julguei-a eterna. Por momentos quis perder-me no infinito. Multiplicar cada segundo passado a encarar o paraíso até esgotar todos os minutos da minha quem sabe escassa existência.
Julguei-a minha. 
A realidade interrompeu-me. Voltei a mim. Olhei as paredes e encontrei nelas palavras que logo considerei serem também minhas. 
Aquela cidade, ainda que estranha, também já era um bocadinho minha.
Trouxe-a no coração, incomodada pela fugacidade dos dias, horas, digo minutos que ganhei ao contemplar outros rostos, outros rios, outras ruas, outras vidas, outros escritos.
Por duas vezes me questionei: e se eu tivesse vivido aqui? Como teria sido a minha vida se toda a trama se tivesse desenrolado não lá, onde vivi, mas aqui, lugar que escolhi?

De ontem


- Traga-me de amêndoa. 
Não quero estar aqui.
Não suporto a névoa asfixiante que por aqui paira.
Os dias arrastam-se, moribundos, à medida que a memória falha, a felicidade esmorece e a respiração parece mais uma súplica do que uma necessidade vital.
"Vita".
"La Dolce Vita", "La Joie de Vivre". Já senti a felicidade a correr-me nas veias, já senti o êxtase, já senti Paz, já senti até o entorpecer dos sentidos. Já dancei, já seduzi, já me esqueci das tarefas mais básicas, porque ser feliz é um emprego a tempo inteiro.
Hoje não sei quem sou, o que sou ou por onde caminho. Há dias em que as ruas me parecem todas iguais. Talvez seja eu quem está igual (não suporto estar igual).
- Traga-me de amêndoa. 
(Só para que eu possa provar um sabor novo. Preciso de algo novo na minha vida que me recorde que estar viva é mais do que respirar, ler e amar. ).
Tenho tudo. Tudo para ser feliz. 
Fazes-me falta?

"
- I don't believe in luck. I do believe we've known each other since forever, though.

- Really?

-Yeah. You know how? When the big bang happened, all the atoms in the universe, they were all smashed together into one little dot that exploded outward. So my atoms and your atoms were certainly together then, and, who knows, probably smashed together several times in the last 13.7 billion years. So my atoms have known your atoms and they've always known your atoms. My atoms have always loved your atoms.
"

Casa no telhado



Perdi as chaves da casa.
Tenho uma casa no telhado,
Sob as estrelas,
A uma hora do mar.
Abro a janela
E tento em vão sentir os aromas
A canela, a maresia e a Verão.
Na rua,
Já são poucos os corpos que vislumbro,
Algo inertes,
À espera de uma vida melhor que nunca vem.
Corpos acomodados à rotina,
Ao vazio das ruas,
E ao cheiro inespecífico do ar.
Inspiro...
Nada.
Nem uma nota de felicidade.
Suponho que seja este o aroma pestilento
Do tédio,
Da desistência,
Da preguiça.

Falo do alto,
Com razão,
Mas sem exemplo.
Acomodei-me, confesso.

Já quase me agrada a apatia,
A falsa paz
E o cheiro a maresia que não é.
E afinal não há corpos,
Sou apenas eu
E uma vontade de recuperar 
O que em mim venceu,
Prosperou
E floriu,
Num ímpeto primaveril
De ser,
Mais do que grandiosa,
Bela,
Extremamente bela.
Ser das aves não a mais singela.
A mais livre.

Quero libertar-me do peso dos outros
Sobre os meus ombros.
Não me liberto de mim.
Já não o quero.
Aprendi que posso voar
Para bem longe
Ainda que a janela seja sempre a mesma
E vontade sempre diferente.

Há sempre uma razão que muda
Não as ruas,
Mas os seus sentidos.




O teu não-cliché


Tenho as malas feitas.
Desta vez, levo apenas o essencial.
Aprendi, da forma mais difícil possível, que apenas o essencial me faz falta.
Poderia soar algo contraditório, algo fútil, algo infantil. Mas não. Não creio que seja infantil buscar a completude, a felicidade, a perfeição. (Muito menos fútil. Ou sequer contraditório.).
Não sei se hei-de levar comigo sonhos. Talvez vá apanhando um aqui e ali, mal chegue ao meu destino.
Desta vez, não quero viver de porquês, de quase-sorrisos, de quase-amores.
Não quero chegar quase ao topo,  quase à meta, quase ao teu coração.
Desta vez, quero ser protagonista da minha própria história, que eu fui esculpindo, com as minhas próprias mãos e as expectativas amadurecidas de menina doce que ainda hoje carrego no coração.
Não quero ser um cliché mas, caso um dia me venha a tornar num cliché, quero ser o melhor cliché alguma vez visto.
O mais feliz, o mais vivo, o mais intenso.



A estrela mais brilhante



A tua ausência funda e crua.
A minha ausência,
Mais funda do que a tua
Mas amena.
A minha ausência.
E a tua bem mais madura,
Mas sem a maciez do tempo,
Que o tempo,
(Se existir tempo)
Só nos faz bem.

A tua ausência,
Tu
E eu.
A tua presença.
Não sei se a quero.
Não sei se te quero,
Se te espero,
Se te venero,
Ou se apenas desespero…

Não é desespero o que sinto.
Seja o que for
É infinito.

É infinito na sua pequenez
Intimista e grandiosa,
Incapaz de ser contida
Em meras palavras
Sem vida,
Sem nexo,
Sem...

O que sinto
É um aperto sem fim,
No coração.
Ou na alma.

Tento desvendar
Aquele que seria o rumo dos acontecimentos
Que haveriam de vir
Se eu ousasse...

Mas,
E se eu escolher não ousar,
Não pensar,
Não amar,
Não sentir,
Não respirar...

Se eu escolher não (te) respirar,
E o destino nos levar
Só porque não era pra ser,
Como deveria ser...

Se eu escolher não caminhar
Nos mesmos trilhos
Que traçaste para nós,
Nem respirar os aromas
Do perfume que deixaste na nossa casa...

Se eu escolher deixar para trás o passado,
Os sorrisos,
E os impulsos de paixão...

Se eu (te) deixar
E souber respirar sozinha
E o Amor não mais entrar...

Talvez eu saiba
Então amar,
Mergulhar num outro mar,
Num outro destino,
No meu próprio caminho.

Talvez...
Então eu tenha certezas
E um coração quente.
E outras mãos que aqueçam
As minhas mãos sempre frias.

Não existem estações frias.



Heteronímias


Interrogo-me acerca do futuro.
Não consigo preservar o entusiasmo sabendo que há coisas que nunca mudam. E, essas coisas, que não mudam nunca, mudam-me a mim. E muito.
Interrogo-me acerca do presente.
Como seria o meu presente, sem o passado que a vida me proporcionou?
Como seriam os meus problemas, os meus dramas, as minhas alegrias... Como seria viver, a minha vida, sentir, tudo quanto quis sentir, no momento certo, com a intensidade correcta.
Perdi tanto, mas tanto...
E o pior é estar consciente de que ainda tenho muito mais a perder daqui em diante.
O que faço?
Quando o coração me pede para fugir, o que faço?
Quando tudo o que quero é Paz, onde a encontro?
Quando tiver sede de liberdade, como a apago?
Quando já não tiver forças, nem sonhos, nem sorriso, onde os resgato?
Meu deus, como eu queria a minha vida de volta...

Quadro


A saudade deveria ter sempre o teu cheiro.
Não sei se alguém já inventou um cheiro para a saudade, uma forma, uma imagem, uma música.
Não sei se será apenas uma palavra. Gostava de acreditar que sim. Mas tu roubaste-me todas as crenças.

Tudo lá me recorda de ti, mesmo sem lá estares. Não sei se algum dia visitaste sequer aquela cidade. No entanto, todas as ruas parecem ter um pouco de ti. Todos os cheiros, todas as paisagens, os turistas, os nomes dos restaurantes, as músicas que passam na rádio. Tudo tem um pouquinho de ti.
Só queria esquecer-te.
Fazer de conta, fingir que foste apenas um sabor novo que eu provei e que me desagradou.
Fazer de ti uma memória distante, sem dor, sem momentos felizes.
Queria apagar o teu sorriso.
E apaziguar a minha alma.


Quero deixar o amor entrar, sem que a casa esteja cheia. Cheia de ti, cheia dos erros que cometi, dos sonhos que vi caírem por terra, da esperança e das crenças que eu já não tenho.

Para amar, deveremos estar cheios de crenças ou deixar-mo-nos levar pela vida?
Levamos uma mala cheia de lições ou um coração leve e renovado?
Como se esquece o passado?





Por vezes, a vida assemelha-se a um filme do Woody Allen.

T.Y., from the heart.



Trazes-me de volta as cores do céu,
O perfume das flores,
A bondade das pessoas,
A fé
E uma serenidade
Que, sem ti,
É impossível de alcançar.

Marés


E, à medida que a música avançava, ela deixava-se seduzir. Cada uma das suas notas parecia tocar-lhe, ainda que de forma encoberta, num recanto especial do coração.
Sentia-o, como a uma brisa de Verão.
Ouvi-lo era como sentir o cheiro a alperce na pele, junto à praia, com o vento a afagar-lhe o cabelo, enquanto os pés a guiavam em direcção àquele que ela sempre soube ser o seu destino.
(Destino?
O que raio é o destino?)
Mudou de faixa. E ele continuava, naquele encantamento semi-inocente, semi-...
Ela lembrava-se dele, junto ao parque.
Ele talvez não se lembrasse dela. 
Olhou-o ao longe, absorto nos seus pensamentos. Parecia seguro de si.
Ela gostava disso nele.
Depois, aproximou-se. Queria saber como seria senti-lo mais perto.
A rua evaporou-se. O vento acalmou. As pessoas deixaram de se cruzar no seu caminho. Os seus amigos emudeceram, por momentos. 
O sol brilhou mais forte, mas ela nem se apercebeu.
Continuou naquela marcha de passeio, inconsciente dos seus passos, inconsciente do tempo e do espaço, mas bem consciente das suas presenças.
Ele era intemporal.
Dava passos firmes, seguros, confiantes, à medida que se aproximava dela.
Ela não sabia o que pensar. E, por isso, excepcionalmente permitiu-se sentir. Apenas sentir.
No instante seguinte ele já lá não estava.
E ela...
Ela não imaginou sequer que guardaria consigo aquele momento, bem como todos os que se lhe sucederam, perplexa, intrigada, seduzida.
E, desde esse momento, ela não soube senão dançar ao som da música dele.

Can we change??


Shiuu! Não digas nada.
Entra e senta-te, mas não digas nada.
A tua voz desconcerta-me
E inunda-me de Amor,
Mas eu não sou já
A tua musa
Amante de tempestades,
Porém serena
Como um porto seguro deve ser.
Não sou
O teu porto seguro,
(Mas poderia ser).
Bem sei
Que me roubaste o véu
Naquele dia.
Bem sabes
(Toda a gente já sabe)
Que quase morri de amor por ti:
Primeiro por te amar,
Depois, por te querer.
Já não sou a miúda de outrora
Que olhava para ti
E só via ternura
E um sem-número de possibilidades.
Não nos acho possíveis.
Mas que sei eu?
Diz-me:
O que sei eu?
Não fui eu
Quem disse que te amava
Mas fui eu
Quem o sentiu.





Amar-te na espera




E, se me perguntarem do que tenho mais saudade,
Logo direi:
Dos Invernos.
Tenho uma saudade insaciável dos Invernos,
E de como sempre foram quentes,
Aconchegados na esperança de te ver chegar.
Tenho saudade...
Daqueles segundinhos antes
E de todos os que vinham depois,
Enroscados na paz que apenas tu
Me sabias trazer,
Docemente envolvida num carinho
Que me inquietava da forma mais serena
Que eu poderia conhecer.
Tenho saudade dos Invernos
E da espera
Para te amar.



Pés no chão

(...)
Pálido, frio, irrequieto
Dorme acordado
Num mistério só seu.
Será meu? Será teu?
Não é de ninguém
Não sabe pertencer.
Desaparece.
Desaparece na sombra.
Não volta.
Espero.
Desespero.
E lá está ele.
Doce. Terno.
De sorriso curioso,
Como uma criança,
Mas que tem histórias para contar.
O nervoso miudinho,
O sim,
E o não.
E o silêncio
Que encurta.
É tudo nosso.
Aquele lugar,
Aquele lugar é tudo.
Correspondes.
Respondes.
Sincero.
Meigo.
A necessidade de estar perto,
De proteger,
De cuidar.
Sou tua.
A praia,
Nós,
A conversa,
O toque.
Foges.
E eu sigo-te.
Amas-me
E eu amo-te.
O beijo,
O beijo
E o abraço.
As mãos que contam segredos.
A despedida.
Não aguento.
Não quero.
Não posso.
Quero-te sempre.
Para sempre.
Quero-te sempre...
Frio,
Quente.
Intenso.
Tudo em ti é intenso
Até o facto de seres ilusão
E de eu acreditar.
Paixão,
Minha paixão,
A única verdadeira
Que eu tive,
Meu sonho.
Então, deixa-me sonhar.
O sorriso,
Oh, o sorriso...
A voz que treme
E foge
Só pra me tocar
Sem que eu sinta.
Não te amo.
Repeles-me.
Aversão.
Desilusão.
Tristeza.
Tornaste-me triste.
Eu.
Triste.
Tu.
A nascente do meu sorriso.



Suspiro

Gosto que gostem de ti,
Gosto que gostem de nós.
Que te dêem valor,
Que falem de ti
Como de uma obra a sério.
Gosto que te gostem
Porque de nada mais gosto,
Senão disto,
De que deveras gosto.
Gosto do gosto de gostar de ti,
Gosto porque gosto,
Por que não haveria de gostar?
Gosto de vocês:
Palavras , sentimentos, sonho, devaneio,
Rancor, raiva, amor, poesia...
Poesia
Depois do Amor
Nunca poesia.
Depois do amor sim.
Procuro a verdade
Sem saber se verdadeiramente quero
Verdade
Ou se quero sentir somente.
A verdade,
Se houver algo
A que se possa chamar verdade,
É que vocês mentem
Melhor do que ninguém,
São mestres na arte de enganar,
De parecer e não ser,
Ou de ser e não parecer.
E eu não sou mestre de nada
Que seja meu,
Nem de vós,
Pois não sois minhas.
Sou quase mestre de mim,
Porque julgo o que vejo,
Mas não julgo o que penso.


Beautiful



Fecha a porta.
Não levantes a ponta do véu
Se não pretendes ficar.
Tenho saudades
E a casa
Fica tão, mas tão vazia
Sem o teu corpo aqui.
Se não for para ficar,
Não venhas,
Não voltes.
Deixa-me voar.






Agosto

Chegaste e pediste
Que te abrisse a porta.
Eu deixei-a aberta
E tu entraste,
Mas sem a fechar.
Seguraste-me a mão
Para eu não cair,
Sentaste-te à mesa
E bebeste-me as lágrimas.
Eu tinha medo.
Mas deixei-te entrar
No meu pequeno e imperfeito mundo.
Dei-te tudo o que tinha,
Roubei para te ver sorrir,
Gemi para que tu não sofresses,
Escondi para que tu não visses...
Um dia,
Tu saíste por aquela porta.
Nem adeus me disseste.
E deixaste sobre a mesa
As palavras mais amargas
Que eu poderia provar.
Eu caí no chão,
Aterrorizada,
E quis lá ficar
Durante largos meses,
À espera que tu voltasses...
Atrás.
Alimentei-me das memórias,
Chorei,
Sofri,
Por ti,
Por mim...
Até os meus olhos secarem
E verem com clareza
No que tu te tornaste.
Um dia,
Amei-te
Até sair à rua
E te ver virar-me a cara,
Altivo,
Superior,
Com o mesmo sorriso
E a meiguice
Com que entraste
Coração adentro.


DNA


"Sei que o sou, poeta de rua errante
Mas é nestas palavras sujas e nuas
Que amo as notas silenciosas que são tuas"

Sem



Não passas de um labirinto
De ruas desenhadas,
Sinuosas,
Incertas.
Um labirinto distante
Que oiço ao longe
Como se do mar se tratasse.
Perdi-me
Algures nas nuvens
Que te cobriam
Num qualquer dia de Verão.
Percorri caminhos
Às escuras,
Cuidadosamente tacteando em meu redor.
E depois,
Precipitei-me,
Movida pelo medo
De querer ficar.
Não olhei para trás.
Perdi-me de amor por ti
Lenta
E abruptamente.


Sem nexo



Queria voltar atrás, só para resgatar todos os poemas de amor que te escrevi. Queria reaver todos os "ses", todos os "como eu te amo!", todas as palavras tontas que escrevi com o sorriso que tu me trazias.
Queria de volta o rubor na face, sempre que o desejo domava qualquer prosa despretensiosa, o atropelo de emoções que me faziam sentir como se tivesse acabado de embater num redemoinho de sentimentos do qual eu nunca quis sair.
Roubaste-me as palavras, os "ses", os sorrisos...
É possível amar não uma, mas duas vezes?
É possível amar outros corpos, outras faces, outros sorrisos, outros tiques, outras ruas, outras cidades, outros perfumes?
É possível amar outra voz?
Outra barba por desfazer?


Quero-as de volta. Todas as palavras que te escrevi, 
Todas as palavras que se escreveram,
Onde quer que elas estejam.
Quero saber para onde vão as palavras
Quando o amor se acaba.
Porque
Também ele acaba,
Um dia.

E, se o amor nos sorrir não uma, mas duas vezes, vamos querer saber para onde foram todas as palavras, todos os gestos, todos os beijos que tínhamos para dar.
Vamos procurar o coração e aquela habilidade infinita de amar que se lê nos olhos de quem ama, ou de quem julga que ama
Com chama
Com alma
Já sem coração.







Repulsa

Quero alguém que me respeite,
Que se afaste,
Que me ame
Sem que me imponha
Nem céus
Nem montanhas
Muito menos janelas
Ou grades
Ou casas soalheiras
Ou sequer uma mansão em Atenas.
Só quero alguém que me respeite
No que sou
Porque sou
E não pelo que sou.

Queria ser Invisível


Eu também já tive um coração.
De veludo
Ou de papelão.
Já tive coração mole,
Sangue quente,
Cabeça fria.
Eu já tive um coração mole
Até o colocar à tua disposição.
Mas será realmente
De quem tem um coração
De veludo ou não,
Prender-se nos medos
E não largar a mão?
Onde está, meu coração,
Se no meio da multidão,
Procuro chão
Ao invés do céu
Com que sempre sempre sonhei,
Onde está, meu tolo coração,
Se construo paredes,
Medos
E me perco no tempo,
Sem ter tempo,
Como no outro tempo,
Tempo para amar,
Tempo para mim,
Tempo para nós,
Meu...

Unexpected



Já vai longe o dia em que acreditei que tu e eu viríamos a ser "nós".
Hoje tudo não passa de uma merda de uma lembrança.
A lembrança da merda dos erros que cometi. De todos os conselhos mal intencionados que escutei. De todas as vozinhas invejosas. Das conclusões trapaceiras. De me pedirem para mudar e de eu ceder. Sim, porque eu, eu cedi, sem querer, sem sentir, sem sequer pensar que devia.
E sabes, no meio disto tudo, o que me dói?
O que ainda me dói?
Não ter dado ouvidos ao meu coração.
Só me arrependo disso: de não me ter calado.
E de não ter dado ouvidos ao meu coração.
Procurei alívio naquelas escadas, naquela brisa, naqueles corredores que ainda agora me confundem. Procurei-me na música. Mas já não me encontrei.
Já lá não estavas.
Já não podia ouvir a tua voz, enquanto contigo me cruzava, de mini-saia e com a timidez que eu procurava ocultar de ti,  com uma capa falsa de indiferença.
Foi tudo falsidade.
Não te querer...
Não te amar...
Foi tudo falsidade, foi o que foi.
Hoje,
Voltei lá.
E doeu.
Não foi alívio que senti.
Não foi o sentimento de closure que eu esperava.
Foi antes e só saudade.
Senti saudade de mim
Senti saudade de ti
E de mim
Contigo por perto.





Buildings

Dancing.

Tudo se transforma.
As ruas, os ventos, os rostos,
As vontades, os desejos, os projectos.
Tudo à minha volta mudou
Sem que nada mudasse verdadeiramente,
Só eu
E quiçá toda a gente.
E essa,
Essa sim, talvez tenha sido a grande mudança.