Heteronímias


Interrogo-me acerca do futuro.
Não consigo preservar o entusiasmo sabendo que há coisas que nunca mudam. E, essas coisas, que não mudam nunca, mudam-me a mim. E muito.
Interrogo-me acerca do presente.
Como seria o meu presente, sem o passado que a vida me proporcionou?
Como seriam os meus problemas, os meus dramas, as minhas alegrias... Como seria viver, a minha vida, sentir, tudo quanto quis sentir, no momento certo, com a intensidade correcta.
Perdi tanto, mas tanto...
E o pior é estar consciente de que ainda tenho muito mais a perder daqui em diante.
O que faço?
Quando o coração me pede para fugir, o que faço?
Quando tudo o que quero é Paz, onde a encontro?
Quando tiver sede de liberdade, como a apago?
Quando já não tiver forças, nem sonhos, nem sorriso, onde os resgato?
Meu deus, como eu queria a minha vida de volta...

Quadro


A saudade deveria ter sempre o teu cheiro.
Não sei se alguém já inventou um cheiro para a saudade, uma forma, uma imagem, uma música.
Não sei se será apenas uma palavra. Gostava de acreditar que sim. Mas tu roubaste-me todas as crenças.

Tudo lá me recorda de ti, mesmo sem lá estares. Não sei se algum dia visitaste sequer aquela cidade. No entanto, todas as ruas parecem ter um pouco de ti. Todos os cheiros, todas as paisagens, os turistas, os nomes dos restaurantes, as músicas que passam na rádio. Tudo tem um pouquinho de ti.
Só queria esquecer-te.
Fazer de conta, fingir que foste apenas um sabor novo que eu provei e que me desagradou.
Fazer de ti uma memória distante, sem dor, sem momentos felizes.
Queria apagar o teu sorriso.
E apaziguar a minha alma.


Quero deixar o amor entrar, sem que a casa esteja cheia. Cheia de ti, cheia dos erros que cometi, dos sonhos que vi caírem por terra, da esperança e das crenças que eu já não tenho.

Para amar, deveremos estar cheios de crenças ou deixar-mo-nos levar pela vida?
Levamos uma mala cheia de lições ou um coração leve e renovado?
Como se esquece o passado?





Por vezes, a vida assemelha-se a um filme do Woody Allen.

T.Y., from the heart.



Trazes-me de volta as cores do céu,
O perfume das flores,
A bondade das pessoas,
A fé
E uma serenidade
Que, sem ti,
É impossível de alcançar.

Marés


E, à medida que a música avançava, ela deixava-se seduzir. Cada uma das suas notas parecia tocar-lhe, ainda que de forma encoberta, num recanto especial do coração.
Sentia-o, como a uma brisa de Verão.
Ouvi-lo era como sentir o cheiro a alperce na pele, junto à praia, com o vento a afagar-lhe o cabelo, enquanto os pés a guiavam em direcção àquele que ela sempre soube ser o seu destino.
(Destino?
O que raio é o destino?)
Mudou de faixa. E ele continuava, naquele encantamento semi-inocente, semi-...
Ela lembrava-se dele, junto ao parque.
Ele talvez não se lembrasse dela. 
Olhou-o ao longe, absorto nos seus pensamentos. Parecia seguro de si.
Ela gostava disso nele.
Depois, aproximou-se. Queria saber como seria senti-lo mais perto.
A rua evaporou-se. O vento acalmou. As pessoas deixaram de se cruzar no seu caminho. Os seus amigos emudeceram, por momentos. 
O sol brilhou mais forte, mas ela nem se apercebeu.
Continuou naquela marcha de passeio, inconsciente dos seus passos, inconsciente do tempo e do espaço, mas bem consciente das suas presenças.
Ele era intemporal.
Dava passos firmes, seguros, confiantes, à medida que se aproximava dela.
Ela não sabia o que pensar. E, por isso, excepcionalmente permitiu-se sentir. Apenas sentir.
No instante seguinte ele já lá não estava.
E ela...
Ela não imaginou sequer que guardaria consigo aquele momento, bem como todos os que se lhe sucederam, perplexa, intrigada, seduzida.
E, desde esse momento, ela não soube senão dançar ao som da música dele.

Can we change??


Shiuu! Não digas nada.
Entra e senta-te, mas não digas nada.
A tua voz desconcerta-me
E inunda-me de Amor,
Mas eu não sou já
A tua musa
Amante de tempestades,
Porém serena
Como um porto seguro deve ser.
Não sou
O teu porto seguro,
(Mas poderia ser).
Bem sei
Que me roubaste o véu
Naquele dia.
Bem sabes
(Toda a gente já sabe)
Que quase morri de amor por ti:
Primeiro por te amar,
Depois, por te querer.
Já não sou a miúda de outrora
Que olhava para ti
E só via ternura
E um sem-número de possibilidades.
Não nos acho possíveis.
Mas que sei eu?
Diz-me:
O que sei eu?
Não fui eu
Quem disse que te amava
Mas fui eu
Quem o sentiu.





Amar-te na espera




E, se me perguntarem do que tenho mais saudade,
Logo direi:
Dos Invernos.
Tenho uma saudade insaciável dos Invernos,
E de como sempre foram quentes,
Aconchegados na esperança de te ver chegar.
Tenho saudade...
Daqueles segundinhos antes
E de todos os que vinham depois,
Enroscados na paz que apenas tu
Me sabias trazer,
Docemente envolvida num carinho
Que me inquietava da forma mais serena
Que eu poderia conhecer.
Tenho saudade dos Invernos
E da espera
Para te amar.



Pés no chão

(...)
Pálido, frio, irrequieto
Dorme acordado
Num mistério só seu.
Será meu? Será teu?
Não é de ninguém
Não sabe pertencer.
Desaparece.
Desaparece na sombra.
Não volta.
Espero.
Desespero.
E lá está ele.
Doce. Terno.
De sorriso curioso,
Como uma criança,
Mas que tem histórias para contar.
O nervoso miudinho,
O sim,
E o não.
E o silêncio
Que encurta.
É tudo nosso.
Aquele lugar,
Aquele lugar é tudo.
Correspondes.
Respondes.
Sincero.
Meigo.
A necessidade de estar perto,
De proteger,
De cuidar.
Sou tua.
A praia,
Nós,
A conversa,
O toque.
Foges.
E eu sigo-te.
Amas-me
E eu amo-te.
O beijo,
O beijo
E o abraço.
As mãos que contam segredos.
A despedida.
Não aguento.
Não quero.
Não posso.
Quero-te sempre.
Para sempre.
Quero-te sempre...
Frio,
Quente.
Intenso.
Tudo em ti é intenso
Até o facto de seres ilusão
E de eu acreditar.
Paixão,
Minha paixão,
A única verdadeira
Que eu tive,
Meu sonho.
Então, deixa-me sonhar.
O sorriso,
Oh, o sorriso...
A voz que treme
E foge
Só pra me tocar
Sem que eu sinta.
Não te amo.
Repeles-me.
Aversão.
Desilusão.
Tristeza.
Tornaste-me triste.
Eu.
Triste.
Tu.
A nascente do meu sorriso.



Suspiro

Gosto que gostem de ti,
Gosto que gostem de nós.
Que te dêem valor,
Que falem de ti
Como de uma obra a sério.
Gosto que te gostem
Porque de nada mais gosto,
Senão disto,
De que deveras gosto.
Gosto do gosto de gostar de ti,
Gosto porque gosto,
Por que não haveria de gostar?
Gosto de vocês:
Palavras , sentimentos, sonho, devaneio,
Rancor, raiva, amor, poesia...
Poesia
Depois do Amor
Nunca poesia.
Depois do amor sim.
Procuro a verdade
Sem saber se verdadeiramente quero
Verdade
Ou se quero sentir somente.
A verdade,
Se houver algo
A que se possa chamar verdade,
É que vocês mentem
Melhor do que ninguém,
São mestres na arte de enganar,
De parecer e não ser,
Ou de ser e não parecer.
E eu não sou mestre de nada
Que seja meu,
Nem de vós,
Pois não sois minhas.
Sou quase mestre de mim,
Porque julgo o que vejo,
Mas não julgo o que penso.


Beautiful



Fecha a porta.
Não levantes a ponta do véu
Se não pretendes ficar.
Tenho saudades
E a casa
Fica tão, mas tão vazia
Sem o teu corpo aqui.
Se não for para ficar,
Não venhas,
Não voltes.
Deixa-me voar.






Agosto

Chegaste e pediste
Que te abrisse a porta.
Eu deixei-a aberta
E tu entraste,
Mas sem a fechar.
Seguraste-me a mão
Para eu não cair,
Sentaste-te à mesa
E bebeste-me as lágrimas.
Eu tinha medo.
Mas deixei-te entrar
No meu pequeno e imperfeito mundo.
Dei-te tudo o que tinha,
Roubei para te ver sorrir,
Gemi para que tu não sofresses,
Escondi para que tu não visses...
Um dia,
Tu saíste por aquela porta.
Nem adeus me disseste.
E deixaste sobre a mesa
As palavras mais amargas
Que eu poderia provar.
Eu caí no chão,
Aterrorizada,
E quis lá ficar
Durante largos meses,
À espera que tu voltasses...
Atrás.
Alimentei-me das memórias,
Chorei,
Sofri,
Por ti,
Por mim...
Até os meus olhos secarem
E verem com clareza
No que tu te tornaste.
Um dia,
Amei-te
Até sair à rua
E te ver virar-me a cara,
Altivo,
Superior,
Com o mesmo sorriso
E a meiguice
Com que entraste
Coração adentro.


DNA


"Sei que o sou, poeta de rua errante
Mas é nestas palavras sujas e nuas
Que amo as notas silenciosas que são tuas"

Sem



Não passas de um labirinto
De ruas desenhadas,
Sinuosas,
Incertas.
Um labirinto distante
Que oiço ao longe
Como se do mar se tratasse.
Perdi-me
Algures nas nuvens
Que te cobriam
Num qualquer dia de Verão.
Percorri caminhos
Às escuras,
Cuidadosamente tacteando em meu redor.
E depois,
Precipitei-me,
Movida pelo medo
De querer ficar.
Não olhei para trás.
Perdi-me de amor por ti
Lenta
E abruptamente.


Sem nexo



Queria voltar atrás, só para resgatar todos os poemas de amor que te escrevi. Queria reaver todos os "ses", todos os "como eu te amo!", todas as palavras tontas que escrevi com o sorriso que tu me trazias.
Queria de volta o rubor na face, sempre que o desejo domava qualquer prosa despretensiosa, o atropelo de emoções que me faziam sentir como se tivesse acabado de embater num redemoinho de sentimentos do qual eu nunca quis sair.
Roubaste-me as palavras, os "ses", os sorrisos...
É possível amar não uma, mas duas vezes?
É possível amar outros corpos, outras faces, outros sorrisos, outros tiques, outras ruas, outras cidades, outros perfumes?
É possível amar outra voz?
Outra barba por desfazer?


Quero-as de volta. Todas as palavras que te escrevi, 
Todas as palavras que se escreveram,
Onde quer que elas estejam.
Quero saber para onde vão as palavras
Quando o amor se acaba.
Porque
Também ele acaba,
Um dia.

E, se o amor nos sorrir não uma, mas duas vezes, vamos querer saber para onde foram todas as palavras, todos os gestos, todos os beijos que tínhamos para dar.
Vamos procurar o coração e aquela habilidade infinita de amar que se lê nos olhos de quem ama, ou de quem julga que ama
Com chama
Com alma
Já sem coração.







Repulsa

Quero alguém que me respeite,
Que se afaste,
Que me ame
Sem que me imponha
Nem céus
Nem montanhas
Muito menos janelas
Ou grades
Ou casas soalheiras
Ou sequer uma mansão em Atenas.
Só quero alguém que me respeite
No que sou
Porque sou
E não pelo que sou.

Queria ser Invisível


Eu também já tive um coração.
De veludo
Ou de papelão.
Já tive coração mole,
Sangue quente,
Cabeça fria.
Eu já tive um coração mole
Até o colocar à tua disposição.
Mas será realmente
De quem tem um coração
De veludo ou não,
Prender-se nos medos
E não largar a mão?
Onde está, meu coração,
Se no meio da multidão,
Procuro chão
Ao invés do céu
Com que sempre sempre sonhei,
Onde está, meu tolo coração,
Se construo paredes,
Medos
E me perco no tempo,
Sem ter tempo,
Como no outro tempo,
Tempo para amar,
Tempo para mim,
Tempo para nós,
Meu...

Unexpected



Já vai longe o dia em que acreditei que tu e eu viríamos a ser "nós".
Hoje tudo não passa de uma merda de uma lembrança.
A lembrança da merda dos erros que cometi. De todos os conselhos mal intencionados que escutei. De todas as vozinhas invejosas. Das conclusões trapaceiras. De me pedirem para mudar e de eu ceder. Sim, porque eu, eu cedi, sem querer, sem sentir, sem sequer pensar que devia.
E sabes, no meio disto tudo, o que me dói?
O que ainda me dói?
Não ter dado ouvidos ao meu coração.
Só me arrependo disso: de não me ter calado.
E de não ter dado ouvidos ao meu coração.
Procurei alívio naquelas escadas, naquela brisa, naqueles corredores que ainda agora me confundem. Procurei-me na música. Mas já não me encontrei.
Já lá não estavas.
Já não podia ouvir a tua voz, enquanto contigo me cruzava, de mini-saia e com a timidez que eu procurava ocultar de ti,  com uma capa falsa de indiferença.
Foi tudo falsidade.
Não te querer...
Não te amar...
Foi tudo falsidade, foi o que foi.
Hoje,
Voltei lá.
E doeu.
Não foi alívio que senti.
Não foi o sentimento de closure que eu esperava.
Foi antes e só saudade.
Senti saudade de mim
Senti saudade de ti
E de mim
Contigo por perto.