Veias


As luzes
Não me trazem a luz que procuro.
Procuro fundo,
Procuro no escuro,
Procuro vestígios do meu eu.
Perdi-o.
Perdi o eu.
Encontrei-o em ti.
Perdi-o outra vez.
Quero reencontrar-me outra vez
Comigo,
Com sonhos,
E planos
E menos aventuras.
Quero
Sentir que a sinceridade
Tal como a doçura,
Nunca se dá em demasia,
Nem por hipocrisia,
Que é verdadeiro
O que trago escondido no peito.
Não conheço esta rua,
Estas casas,
Estes risos.
Estou demasiado cansada
Para recomeçar tudo de novo,
Com um sorriso nos lábios
E a dor
De fingir que curei as feridas
Que não deixaram ainda de sangrar...


Fraqueza ou força



Trocas-me as voltas.
Voltas.
Partes.
Ficas.
Fazes.
Desfazes.

Conheci mundos além de ti
Esqueci,
Renasci,
Reinventei-me
Enquanto me procurava
E o encontrava.

Por vezes é só um mote
Ou um golpe de sorte,
Uma palavra que nos atingiu bem no coração
Ou o momento
Que é o certo
Pra ouvir uma mesma canção.

Não vem do coração.
Não.


Beleza apocalíptica


Percebi que não necessita fazer sentido 
Ou cumprir regras.
Que não importa o sentido 
Que tentamos impingir ao destino.
Há sempre algo de incoerente
Que nos faz voltar,

Independentemente de sabermos
Que nos vamos magoar no final.
Há sempre algo 
Que nos faz voltar,

E se a tentação de escolher outro caminho
For surpreendentemente forte,
O mais provável
É sermos arrastados pelo medo
E voltar.

Gostamos das dores que já são nossas conhecidas,
Acarinhamos as que já tratamos por "tu".

Não sei se será uma tragédia 
Na qual gostamos de nos perder,
Uma atracção magnética pelo caos
Ou apenas uma fatalidade doce,
Um carinho ferido,
E umas quantas ternuras
Que ficaram por contar.


Lápis



Leva-me contigo no coração.
Não sei para onde foram as palavras
Que um dia eu amei,
Os sorrisos que dei,
E o versos que esculpi
Só por gostar de ti.

Não sei
Por que foi o mais puro que senti.

Percorremos caminhos paralelos
Em jardins mais do que belos
E hoje
O que temos...
É tão pouco.

Vejo o teu reflexo em versos que não são os teus.
Fiz de ti poeta dos meus sonhos,
Meu primeiro amor.

Onde estão esses sonhos,
Essa simplicidade carinhosa,
Que te escorria pela voz,
Esses teus olhos tão negros,
Tão meigos?

A tua mão na minha,
A tua mão
Na minha cintura,
O teu corpo bem junto do meu?

O que foi que nos aconteceu?

Por ti aprendi a escrever sonetos
Tecidos com uma mestria infantil,
Alimentados apenas pela felicidade absolutamente indescritível
Que tu me fazias sentir.

O sangue a fervilhar nas veias
Não de excitação,
Mas de alegria.

O sorriso que da minha face não saía.

Aguardar-te
Sereno e seguro,
Com uma sagacidade sedutora
Que eu jamais conheci.

Hoje não queria falar de ti,
Voltar a ti,
Voltar aqui.

Hoje parti
E percebi
Que somos sempre
Uma única parte
Numa equação fatalmente irrepetível.

Leva-me contigo no coração.

Desarmonias



Se o mar for o mesmo,
Se eu chorar memórias antigas,
Se a saudade for mais forte
Do que os imprevistos da vida,

Se as palavras se repetirem
E a distância nem sempre me cair bem,

Se eu me quiser fechar em mim,
Não estar,
Não falar,
Nem respirar,

Se eu evitar
As pedras em que já tropecei,
Se rejeitar
Os muros que já me viram chorar,
Não uma,
Mas todas as vezes
Em que eu por lá passei,

Se
Eu desejar uma ponte
Só para dela saltar,

Se eu me sentir asfixiar,

Se eu não quiser conhecer ninguém novo,

Se eu não quiser mudar,
Fingir
Ou deixar de ser,

Não julgues,
Que eu percebo
Ou percebi somente,
(Ainda com a alma descrente
E o coração
Muito mais quente),

Eu percebo
Mas preciso ser entendida,

Como se fosse uma estrofe sem sentido,
Uma narrativa sem ter nunca parágrafo ou ponto final,

Como se fosse sempre
Um ponto de escuridão no teu dia,
Ou um foco de luz
Numa noite sombria.

Preciso de um abraço.
Mas não o quero.
Não quero prender-me em abraços,
Noutros braços,
Nos teus braços,
Em quaisquer laços,

Por isso,
Talvez seja mais simples
Ou pragmático
Ter o mesmo mar,
A mesma dor,
A mesma não-vontade de lutar
Numa luta que se arrasta
Ao mesmo tempo que nos destrói,
Constrói,
Reconstrói
E nos destrói outra vez.

Almas sem fé são assim.

Mas já alguém disse
Que de duas descrenças
Se não compõe
A mais perfeita fé?




Desvital



Como uma cerveja gelada.
A vida flui
Leve,
Fresca,
Amarga,
Intensa.

Quem me dera compreender
As ruas que não são minhas,
As rimas que perdi entre linhas,
As lágrimas deixadas em esquinas,
Desconhecidas,
Percorridas,
Desnorteadas.

Quem me dera mapear apenas sorrisos
E trazer apenas conquistas
Pra conquistar
Não corações,
Mas razões.
Porque é com a razão 
Que se conquista um coração que não.
Menos o meu.
O meu coração não.
Nem com,
Nem sem razão.

Quero saber 
Se a tua rua tem chegada.





Ventos



"Leite, leitura
 letras, literatura,
 tudo o que passa,
 tudo o que dura
 tudo o que duramente passa
 tudo o que passageiramente dura
 tudo,tudo,tudo
 não passa de caricatura
 de você, minha amargura
 de ver que viver não tem cura

                                                    Paulo Leminski

Mind



Já quis um Inverno doce.
Já quis um Inverno selvagem
Que pusesse à prova
Tudo quanto o tempo nos quis mostrar.

Já desejei cenários distintos
De uma mesma peça.
Desfechos felizes.
Descomeços.

Já tentei virar do avesso
Os princípios que tardei a estruturar.
Já transpus fronteiras
E logo desejei voltar.

Já pedi desculpas sem o sentir.
Já quis pedir desculpas de novo
Sentidas,
Doridas,
Inúteis.

Já dei razão
Sem o admitir.




Artes


Não sei se a poesia
É a arte de criar
Ou de ser criado.

Nitidez



A vida era nítida
Nas águas turvas
Que lhe levavam para longe os pensamentos.
Permitiu-se sentir,
Bem mais do que devia
E a memória já lhe pregava partidas.
Como se a sua vida
Não fosse mais do que uma manobra de diversão,
Uma comédia negra
Ou uma negra comédia
Sem final feliz à vista.
Mudara-lhe a vista,
Os gostos,
A escrita.
Roubara-lhe as palavras
Com o mesmo prazer
Com que se rouba um beijo.
Mas ela deu luta
E conseguiu reavê-las,
Brincar com elas,
Manipulá-las,
Com uma mestria
Que até aquele dia fora para si desconhecida.
Pelo caminho ficou-se o beijo,
O desejo,
A obra
E uns quantos credos
Sem suspiros ou medos.
Ela ficou,
Ao mesmo tempo que partiu.
E a vida seguiu,
Rodopiando,
Sem sair do lugar,
Mas mudando toda a paisagem.
- Não importa. - pensou ela.
A paisagem mudou.
O frio ficou.
Mas ela vingou.

Rascunhos II


Imaginei-me a percorrer os caminhos da imensidão contigo, a explorar vales, a contemplar colinas, rios e flores.
Imaginei-nos a sentir os odores, a trocar carícias.
Os beijos que vi eram nossos. As mãos, as nossas mãos. O amor... bem, nada se compara ao nosso amor.
Entendo agora que o amor tem muitas formas.
A memória de uma infância feliz, já meio adormecida, invadiu-me os pensamentos. Entrou sem pedir licença e apoderou-se de mim até as lágrimas ameaçarem começar a cair. Senti um misto de felicidade e tristeza.
Quis tanto, mas tanto partilhar isto contigo.
Senti que conseguirias compreender, como eu, que os vales nunca são só vales, nem as colinas apenas colinas, que há muito por detrás dos rostos e das palavras... Oh, as palavras, nunca serão só palavras. E, ainda que sejam palavras, nunca são as palavras que são, mas sim as palavras que o coração expulsou.
Quis que estivesses e sentisses. Queria que o sentisses comigo.
Não há palavras, no mundo inteiro, capazes de exprimir quanta vida existiu em mim naqueles momentos.


Rascunhos I


Quis percorrer os caminhos todos. O tempo era afinal demasiado escasso para fotografar todos os pormenores, captar todos os reflexos de um sol envergonhado, toda a história contada naquelas paredes antigas, todas as histórias que ficaram por contar, desenhadas nos rostos das pessoas que por lá deambulavam. 
Olhei a imensidão e senti-me pequenina. Pequenina e deslumbrada.
Como poderia tamanha beleza caber num olhar fugaz?
Não tirei os olhos da água cristalina e calma que num ápice conquistou toda a minha atenção. Esqueci a música, as pessoas, os automóveis que corriam pela rua. Esqueci até as casas, de uma arquitectura que em nada me era familiar.
Éramos nós, só eu e aquela água cristalina. Eu, na minha pequenez e a água cristalina, em toda a sua imensidão.
Julguei-a eterna. Por momentos quis perder-me no infinito. Multiplicar cada segundo passado a encarar o paraíso até esgotar todos os minutos da minha quem sabe escassa existência.
Julguei-a minha. 
A realidade interrompeu-me. Voltei a mim. Olhei as paredes e encontrei nelas palavras que logo considerei serem também minhas. 
Aquela cidade, ainda que estranha, também já era um bocadinho minha.
Trouxe-a no coração, incomodada pela fugacidade dos dias, horas, digo minutos que ganhei ao contemplar outros rostos, outros rios, outras ruas, outras vidas, outros escritos.
Por duas vezes me questionei: e se eu tivesse vivido aqui? Como teria sido a minha vida se toda a trama se tivesse desenrolado não lá, onde vivi, mas aqui, lugar que escolhi?

De ontem


- Traga-me de amêndoa. 
Não quero estar aqui.
Não suporto a névoa asfixiante que por aqui paira.
Os dias arrastam-se, moribundos, à medida que a memória falha, a felicidade esmorece e a respiração parece mais uma súplica do que uma necessidade vital.
"Vita".
"La Dolce Vita", "La Joie de Vivre". Já senti a felicidade a correr-me nas veias, já senti o êxtase, já senti Paz, já senti até o entorpecer dos sentidos. Já dancei, já seduzi, já me esqueci das tarefas mais básicas, porque ser feliz é um emprego a tempo inteiro.
Hoje não sei quem sou, o que sou ou por onde caminho. Há dias em que as ruas me parecem todas iguais. Talvez seja eu quem está igual (não suporto estar igual).
- Traga-me de amêndoa. 
(Só para que eu possa provar um sabor novo. Preciso de algo novo na minha vida que me recorde que estar viva é mais do que respirar, ler e amar. ).
Tenho tudo. Tudo para ser feliz. 
Fazes-me falta?

"
- I don't believe in luck. I do believe we've known each other since forever, though.

- Really?

-Yeah. You know how? When the big bang happened, all the atoms in the universe, they were all smashed together into one little dot that exploded outward. So my atoms and your atoms were certainly together then, and, who knows, probably smashed together several times in the last 13.7 billion years. So my atoms have known your atoms and they've always known your atoms. My atoms have always loved your atoms.
"

Casa no telhado



Perdi as chaves da casa.
Tenho uma casa no telhado,
Sob as estrelas,
A uma hora do mar.
Abro a janela
E tento em vão sentir os aromas
A canela, a maresia e a Verão.
Na rua,
Já são poucos os corpos que vislumbro,
Algo inertes,
À espera de uma vida melhor que nunca vem.
Corpos acomodados à rotina,
Ao vazio das ruas,
E ao cheiro inespecífico do ar.
Inspiro...
Nada.
Nem uma nota de felicidade.
Suponho que seja este o aroma pestilento
Do tédio,
Da desistência,
Da preguiça.

Falo do alto,
Com razão,
Mas sem exemplo.
Acomodei-me, confesso.

Já quase me agrada a apatia,
A falsa paz
E o cheiro a maresia que não é.
E afinal não há corpos,
Sou apenas eu
E uma vontade de recuperar 
O que em mim venceu,
Prosperou
E floriu,
Num ímpeto primaveril
De ser,
Mais do que grandiosa,
Bela,
Extremamente bela.
Ser das aves não a mais singela.
A mais livre.

Quero libertar-me do peso dos outros
Sobre os meus ombros.
Não me liberto de mim.
Já não o quero.
Aprendi que posso voar
Para bem longe
Ainda que a janela seja sempre a mesma
E vontade sempre diferente.

Há sempre uma razão que muda
Não as ruas,
Mas os seus sentidos.




O teu não-cliché


Tenho as malas feitas.
Desta vez, levo apenas o essencial.
Aprendi, da forma mais difícil possível, que apenas o essencial me faz falta.
Poderia soar algo contraditório, algo fútil, algo infantil. Mas não. Não creio que seja infantil buscar a completude, a felicidade, a perfeição. (Muito menos fútil. Ou sequer contraditório.).
Não sei se hei-de levar comigo sonhos. Talvez vá apanhando um aqui e ali, mal chegue ao meu destino.
Desta vez, não quero viver de porquês, de quase-sorrisos, de quase-amores.
Não quero chegar quase ao topo,  quase à meta, quase ao teu coração.
Desta vez, quero ser protagonista da minha própria história, que eu fui esculpindo, com as minhas próprias mãos e as expectativas amadurecidas de menina doce que ainda hoje carrego no coração.
Não quero ser um cliché mas, caso um dia me venha a tornar num cliché, quero ser o melhor cliché alguma vez visto.
O mais feliz, o mais vivo, o mais intenso.



A estrela mais brilhante



A tua ausência funda e crua.
A minha ausência,
Mais funda do que a tua
Mas amena.
A minha ausência.
E a tua bem mais madura,
Mas sem a maciez do tempo,
Que o tempo,
(Se existir tempo)
Só nos faz bem.

A tua ausência,
Tu
E eu.
A tua presença.
Não sei se a quero.
Não sei se te quero,
Se te espero,
Se te venero,
Ou se apenas desespero…

Não é desespero o que sinto.
Seja o que for
É infinito.

É infinito na sua pequenez
Intimista e grandiosa,
Incapaz de ser contida
Em meras palavras
Sem vida,
Sem nexo,
Sem...

O que sinto
É um aperto sem fim,
No coração.
Ou na alma.

Tento desvendar
Aquele que seria o rumo dos acontecimentos
Que haveriam de vir
Se eu ousasse...

Mas,
E se eu escolher não ousar,
Não pensar,
Não amar,
Não sentir,
Não respirar...

Se eu escolher não (te) respirar,
E o destino nos levar
Só porque não era pra ser,
Como deveria ser...

Se eu escolher não caminhar
Nos mesmos trilhos
Que traçaste para nós,
Nem respirar os aromas
Do perfume que deixaste na nossa casa...

Se eu escolher deixar para trás o passado,
Os sorrisos,
E os impulsos de paixão...

Se eu (te) deixar
E souber respirar sozinha
E o Amor não mais entrar...

Talvez eu saiba
Então amar,
Mergulhar num outro mar,
Num outro destino,
No meu próprio caminho.

Talvez...
Então eu tenha certezas
E um coração quente.
E outras mãos que aqueçam
As minhas mãos sempre frias.

Não existem estações frias.