Paralelipípedo-pirâmide



Serei capaz?
Serei capaz de cair nos teus braços e fechar os olhos,
Segura,
Quente,
Aconchegada
No bater de um coração
Que desconheço.
Serei capaz
De aprender
De que cor se fazem os teus olhos,
Com que palavras se compõe o teu sorriso
E quais as portas
Que te fazem sonhar.
Serei capaz de ser para ti fé,
De aceitar a tua descrença
De superar a diferença
E de agradecer a deus
Por te ter colocado no meu caminho.
Não sou Fé
Mas, por ti,
Posso ser tudo quanto quiseres.
O Amor é um emaranhado complexo de vontades,
De à-vontades,
De Paz
E de carinho.

Vontades limam arestas?




Reverse


Se as ruas estão cheias
E as pessoas vazias,
O que perco eu?

Tesouras


Os meus cabelos loiros pousam sobre os ombros,
Sem vida.
Os meus olhos 
Encaram fixamente o vazio 
Que deixaste deliberadamente na minha vida.

Ás vezes acho que sou um animal de hábitos.
Já me acostumei com a tua ausência.
Não tardou,
Pelo menos não tanto
Quanto tu tardaste.

Já me não entristece 
Ir esquecendo aos poucos os contornos da tua face,
Conforme sucede nos filmes que me ocupam os tempos mortos
Mas mais repletos de vida
Do que eu algum dia cri ser possível.

Eu posso amar outra vez.
Outras vezes.
Incontáveis dias
E noites
E sonhos.
Eu posso amar.

Foi bom
Descobrir,
Descobrir-te,
Descobrir-me,
Conhecer-me.

Partir.

Quero um infinito
Que não creio
Que algum dia sejas capaz de descobrir.
Não te deixo sinais
Ou pistas,
Nem memórias.

Memórias pertencem ao passado.

Não fomos
Passados,
Momentos,
Interrupções.
Erupções de sentimentos
E convulsões de emoções 
Inexplicáveis,
Inconfessáveis,
Irrepetíveis.

A felicidade não se repete.
Simplesmente muda de forma,
E dignifica-se.


Encontrei o caminho para casa.





Escuridão



Entristece-me a alegria com que brincas
Nas luzes da rua,
Na escuridão do meu olhar
Que sempre me surpreende,
Debruçando-se em ti.

Brincas
Nas luzes da rua
Com o mesmo entusiasmo 
Com o qual um dia eu brinquei.

Brincas 
Com o sorriso 
De quem ainda acredita
Que a felicidade 
É bem real
E jamais será uma falácia absurda,
Um engodo do destino.

Brincas
E eu observo.

Para onde vamos?


No sense

Que se lixem os sonhos.
Há sempre um dia, nas nossas vidas, em que percebemos que os castelos no ar são apenas isso: esboços, desejos, aspirações. 
Que nem sempre os beijos mais quentes nos trazem o aconchego de que precisamos.
Que precisar não é bom, mas que, por vezes, é inevitável.
Que se lixem os sonhos, os amores de novela, os hollywoodescos também.
Que se lixe a perfeição, ainda que perfeitamente imperfeita.
Que se lixem os príncipes. Os médicos, advogados, CEOs.
Que se lixem os corpos esculpidos, os sorrisos doces, os atrevidos e os olhares que pedem mais.
No final apenas nos recordamos de uma coisa:

“Respirar só vale a pena por haver momentos em que perdemos a respiração.
Respira. Fifinha Proust respira pouco. Mas está muito viva. 

A vida não se mede em respirações. A vida mede-se em faltas de respiração."
"In Sexus Veritas", de Pedro Chagas Freitas


O coração saltou uma batida. Não me faltou o ar.
Quis sorrir.
Quis chorar.
Lar.